terça-feira, 3 de abril de 2012

O MAJOR LUIZ VÁLIO - O VÁLIO DE SÃO MIGUEL ARCANJO


DIGNO DE PREITO


Pelo decreto número 74, de 20 de outubro de 1971, a antiga rua Almirante Barroso, em São Miguel Arcanjo, passou a denominar-se Rua Major Luiz Válio, ex - prefeito municipal. Essa rua contorna as terras que foram suas e que compunham a Fazenda Bom Retiro.
O Major Luiz Válio também foi homenageado pelo Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Itapetininga, onde é patrono de uma cadeira  ocupada pela neta, também escritora, Luiza Válio, primogênita de Luiz Válio Júnior, atualmente residindo em São Miguel Arcanjo. 
Esse Instituto foi criado em 2.005.

O MAJOR E SUA BIOGRAFIA

Nasceu Luiz Válio no dia 27 de fevereiro de 1880 na cidade de São Miguel Arcanjo, outrora pertencente ao município de Itapetininga, no Estado de São Paulo.
Na época do seu nascimento, as crianças de ambos os sexos usavam camisolas e tinham cabelos compridos. Costumava-se fazer fogo nas casas, de preferência na cozinha, sobre alguns tijolos, imitando uma lareira. Para isso, as pessoas tinham o cuidado de escolher sempre achas de lenha branca que não faziam fumaça. As palestras se estendiam até altas horas.  
O Major era afilhado de Maximina Ubaldina Nogueira, filha do Tenente Urias Emídio Nogueira de Barros, o qual, segundo consta, era proprietário de uma grande fazenda na região denominada Fazenda Velha, a qual, de acordo com Manoel Valente Barbas, descendente de Urias, deu origem ao atual município.
Com apenas oito anos de idade, Luiz Válio fez seu primeiro discurso nos ombros do Chico Bumbeiro; Chico era tocador de bumbo na banda de música local, bem à época da libertação dos escravos e era pai de Maria, que se tornaria esposa de Benedito Antonio de Souza, até hoje, o primeiro e único prefeito negro na história de São Miguel Arcanjo.
Nos anais da Câmara, por ocasião da posse da primeira delas, no ano de 1.889, lá se pode ver a sua assinatura.
E ele só tinha 9 anos de idade!
Foi seminarista e muito amigo do Bispo Dom Aguirre, de Sorocaba.
Aos 19 anos, foi nomeado escrevente do Cartório e aos 20 anos já estava se casando com Cirila Nogueira, da descendência do Tenente Urias, nascida aos 12 de abril de 1886 no município de Sarapuí, porém, batizada em Sorocaba. 
Cirila era prima de Alcindo Nogueira, que se casou com Cacilda Galvão, cujos pais residiam em Gramadinho na década de 30.
Cirila era neta de Antonio Machado de Moraes, casado com Escolástica de Tal, e filha do casal Roberto Antunes Nogueira e Antonia Augusta Nogueira.
O pai  de Cirila, Roberto Antunes Nogueira.
Era irmã de Antonio José Nogueira, casado com Maria Fogaça (estes, pais de Alcindo Nogueira casado com Áurea Nogueira, por sua vez pais do conhecido ‘Ventana’, pai de Antonio Cláudio Nogueira, o Calilo, que se casou com uma neta do Major, Maria de Fátima Válio França); de Roberto Antunes Nogueira Júnior, o Bertinho, e Timóteo, que foi assassinado a mando de políticos de São Miguel Arcanjo, quando acompanhava o padre da época até a cidade de Itapetininga.
Este Timóteo, depois que fora assassinado, virou corpo santo. Enviado para Roma, até hoje ninguém mais soube do que aconteceu com seu corpo, que permanecera intacto. 
O casamento do Major com Cirila realizou-se no dia 26 de junho de 1900, em São Miguel Arcanjo, sob as bênçãos do padre Francisco Botti, tendo como testemunha Juvenal dos Santos Terra, um dos filhos de Maximina Ubaldina Nogueira, filha do Tenente Urias casada com Miguel dos Santos Terra.




Todo um quarteirão da antiga Rua Sete de Setembro, hoje Cônego Francisco Ribeiro, era sua propriedade. 
A princípio, ele residiu na casa à esquerda, bem na esquina com a Rua Monsenhor Henrique Volta. 
O casarão ao fundo foi construído pelo Monsenhor Henrique Volta. Ao voltar para a Itália, o Monsenhor vendeu o imóvel a Luiz Valio.
Uma lembrança de quando foi festeiro do divino:




Aos 21 anos, Luiz Valio tornou-se vereador em sua cidade.
Luiz foi lavrador e também comprava e vendia algodão; na inauguração da chegada da máquina de descaroçar algodão, " Machina São Luiz", houve uma grande festa, com a banda de música local e o padre Carlos Regattieri presente para a benção.
O Major Luiz Valio está postado à esquerda do padre Regattieri
Essa máquina foi vendida mais tarde para Narlir Miguel. 

A empresa ficava na Rua Sete de Setembro, ali onde hoje está a propriedade de Licério de Oliveira.
Publicidade de época:

Luiz Valio também foi proprietário de hotel – o Hotel Válio - localizado na Rua Sete de Setembro, 17. 
Esse hotel era muito bem montado, com excelentes cômodos, mesa lauta e rigoroso asseio. 
Anexo a ele havia uma espaçosa mangueira para tropas com bom pasto e uma imensa garagem para automóveis. No ano de 1.925, o hotel foi vendido para o grupo empresarial João Paulino da Silva e Cia. 
Fundador e presidente de Partido Político, proprietário de jornal (fundou “A Razão”), colaborava com o periódico “O Progresso”, usando diversos pseudônimos, tais como J. Severo, Doutor Ferdinando, Ferdinando Cipó, L.V., Doutor Ferrão, etc.
O maior dos crimes na São Miguel do passado era ser honesto, verdadeiro e desejar o bem da coletividade sem demagogias.
Numa época da sua vida, o Major foi execrado publicamente. Esse fato ainda não foi devidamente decifrado.
O periódico ‘A Razão’, fundado pelo Major, era um órgão do Partido Republicano de Oposição local;  publicava-se às quintas-feiras e tinha como gerente Cassiano Vieira e como redator principal o ilustre jornalista Mário Augusto de Medeiros, um dos primeiros secretários da Câmara.
Na edição de no. 21 de ‘A Razão’, do dia 15 de novembro de 1.923, Mário assim escrevia sobre o Major Luiz Válio:



“Por conveniência de ordem política, deixou a direção desta folha o senhor major Luiz Válio.
Dizer em poucas palavras de sua passagem por esta redação, tal a contextura que deu ao nosso periódico, tais os traços indeléveis que deixou, seria tarefa muito além do nosso esforço de síntese.
Batalhador impertérrito, polemista de fôlego, soube o major Luiz Válio revidar com a mesma intensidade ou quiçá maior, os ataques que recebeu de seus desafetos.
Ferido na sua qualidade de político, o foi também (quem o diria!) na sua qualidade de homem, de membro respeitável da nossa coletividade, tal o efeito das paixões mal compreendidas ao sabor da ignorância humana.
Do brilho com que soube defender-se, da coragem com que enfrentou as duras investidas de seus vesgos adversários, estão aí para atestar os artigos que escreveu, procurando, em todos eles, por princípio, desviar-se da vereda escabrosa do ataque pessoal, perdoando aos seus gratuitos detratores a intenção malévola que manifestaram de expô-lo à maledicência pública, na terra de seu próprio nascimento, na terra que deveria orgulhar-se de chamá-lo filho e filho diletíssimo, tal o amor que a ela tem consagrado!
Através dos seus artigos de defesa, em que dava aos seus inimigos liberdade plena para dissecarem as mazelas de sua alma, percebia-se o cuidado com que procurava ocultar os benefícios que tem feito, estancando muitas lágrimas e consolando muitas dores, aos pobres, às viúvas, a órfãos e desvalidos.
Oxalá não houvesse tal a contingência humana, tal a ingratidão dos homens dentre os seus algozes, alguns deles que o vissem desprendido e solícito, à beira do seu leito ou de alguém de sua família, na faina inglória de suprir a falta de um médico, até que recursos mais eficazes pudessem vir de fora!
Oxalá tivessem todos os seus detratores, e não foram poucos, e todos eles gratuitos, um passado honroso e honrado que os colocasse ao abrigo da maledicência vil da canalha baixa!
Eis, em rápidas e apagadas linhas, o esboço moral do nosso ex-diretor.
Fundador de nossa folha, está o seu nome ligado aos destinos do nosso jornal, e jamais olvidaremos o muito que fez e o muito que trabalhou para que o nosso periódico conseguisse os foros que conseguiu com sua atuação criteriosa baseada nos moldes da imprensa honesta e desinteressada que visa tão somente os interesses locais e os de ordem geral, e jamais se presta a conchavos subalternos.
Que a nossa rota a seguir será a mesma, di-lo o que acima afirmamos, isto é, teremos por escopo tão somente os interesses locais e os de ordem geral que redundem em benefícios ao nosso município e à zona que representamos.
Ao estamparmos o retrato do nosso ex-diretor, major Luiz Válio, na página de honra do nosso jornal, nada mais fazemos do que cumprir com o nosso dever.
Perdoe-nos o homenageado, se ofendemos a sua modéstia, e teremos pago, muito espontânea e gostosamente uma dívida de gratidão, o que já não é pouco nos tempos ominosos que atravessamos, em que a doutrina utilitária, qual erva daninha, procura abafar o viço da moral cristã”.
Como escritor, Luiz Válio deixou expressos no jornal ‘O Progresso’, cujos exemplares são bastante raros, toda a luta pela construção de uma estrada que ligasse São Miguel a Sete Barras e toda a verdadeira história dos últimos momentos da conquista que foi a emancipação político- administrativa do município.
Fundou o Partido Democrático e, nos dias 02, 03 e 04 de fevereiro de 1.931 seguiu para a Capital a fim de tomar parte como representante do município de São Miguel Arcanjo no 7º. Congresso do Partido do qual era presidente do Diretório Municipal. A sede do Partido ficava na Rua Miguel Costa, no. 15. Essa rua deve ser a mesma rua que mais tarde levaria  o nome de Rua Sete de Setembro e, hoje, homenageia o Cônego Francisco Ribeiro.
No dia 1º. de fevereiro de 1.931, ‘O Progresso’ publicava o seguinte:
‘ Na sede do Partido Democrático desta cidade já se acham as listas de apoio a esse partido, as quais devem ser assinadas por todos quanto queiram, com boa vontade, prestar o seu concurso à causa da reorganização e saneamento político do país. Essas listas podem ser assinadas pelos democráticos que, assim, reafirmarão a sua fidelidade ao partido e também pelos ‘patrícios que, até aqui, indiferentes às lutas partidárias, ou sarados dos erros do passado, convertidos, se dispuseram a formar com dignidade e honradez ao lado da possante agremiação paulista’. Todos os cidadãos bem intencionados, mesmo aqueles que prestaram apoio ao extinto PRP, uma vez que se encontrem limpos de consciência, podem aproveitar esta ocasião de se tornarem úteis, agora, à Pátria’.
Além de vereador, foi prefeito, segundo consta, em 1.909, e de 1.943 a 1.945; Presidente da Câmara de 1.936 a 1.937 e Delegado de Polícia.
Cultor da Medicina Alternativa fazia manipulação de remédios baseados em ervas medicinais, de grande mister para os mais pobres.
Tinha o dom de curar dor de cabeça. Bastava para isso colocar as mãos na cabeça do doente.
Afora todos os sonhos que nutria para a sua terra natal, ainda advogava sem cobrar nada das camadas mais carentes da população, em sua própria residência, numa parceria com advogados itapetininganos.  
Luiz Válio foi o maior intelectual que a cidade já teve. Correspondia-se com o jornal “A Província de São Paulo”, hoje “O Estado de São Paulo”.
Era grande orador e discursava até mesmo em congressos na Capital de São Paulo, sempre levando reivindicações de melhoria da qualidade de vida para as cidades do interior, incluindo a sua.
Luiz Válio chefiou quase todos os partidos oposicionistas que se organizaram no município de São Miguel Arcanjo desde o advento da República, nunca, porém, deixou de manter o devido respeito para com seus adversários, mesmo para com aqueles que se portaram com revoltante indignidade.
No ano de 1.926, manteve uma agência de negócios. Ele prestava seus serviços de consulta sobre quaisquer assuntos de direito civil, comercial, criminal, etc., gratuitamente. Vendia terras e outras espécies. Nesse mesmo ano encarregara-se de vender 3 mil alqueires de terras de superior qualidade para culturas diversas sitas à margem esquerda da estrada do governo que seguia para Curitiba, em lotes de 20 alqueires, ao preço de 50$000. Eram terrenos que mais tarde se valorizaram bastante.
Como ele sempre dizia, apesar dos pesares, continuava, como sempre, a proteger os necessitados de seus serviços.
Triunfando a Revolução de 24 de Outubro de 1.930, ele foi perseguido e a sua família porque fora simpático a essa causa. Foi processado assim como outros correligionários. Um Juiz federal despronunciou a todos eles.
Em 25 de outubro de 1.930 assumiu a presidência da Junta Governativa local e o cargo provisório de Delegado de Polícia confirmado pelo Chefe de Policia por ato de 28 do mesmo mês.
Poderia ter-se vingado, mas não o fez. Nunca foi covarde!
Sua meta, quando algum poder lhe cabia, era sempre manter em paz a família são-miguelense.
Ao tempo do prefeito Edwiges Monteiro, e conforme decreto 10, de 16 de março de 1.931, o Major foi designado para colaborar na fiscalização e direção dos trabalhos aos quais a comunidade fora obrigada: ajudar a construir os caminhos municipais. Todos os que moravam nos bairros, eram obrigados a participar desse mutirão. Partindo de suas casas e até a cidade, os cidadãos de 16 a 60 anos se prestaram a abrir estradas para o benefício do povo em geral.
A ele coube a vistoria da segunda zona, entre as estradas de Justinada e Turvinho.
As demais zonas assim foram distribuídas: a primeira, compreendida entre Santa Cruz e Rio Acima, a cargo do Coronel Leonardo Demasi; a terceira, compreendida entre Pocinho e Gramadinho, a cargo do Major Juvenal dos Santos Terra e a quinta, estrada do Rincão e adjacências, sob o comando de Rufino Demétrio.
A partir de 30 de março, porém, a direção e fiscalização dos serviços gerais ficaram a cargo apenas do Major Luiz Válio e do Coronel Demasi. Este Demasi era proprietário da Fazenda do Pinhal e fez às suas expensas os pontilhões e os bueiros da estrada do seu sítio até a cidade.
Na década de 30, fundou o Partido Democrático, numa época em que a maior preocupação dos homens cultos do município era manter a todo custo a autonomia do mesmo. Faziam parte da Diretoria desse partido, que era por ele presidido, cidadãos como o Monsenhor Henrique Volta, Edwirges Monteiro, Horácio Pereira da Silva, Pedro Ribeiro Vaz e Acácio dos Santos Terra. E como membros do Conselho Consultivo: o presidente, Manuel Augusto Borges e mais José Ribeiro da Costa Vaz, José Modesto da Silva, Eusébio Pereira, José Fama de Araujo, Virgílio Leme da Silva, Roque Nunes Rato, Mizael Izídio Machado, Jorge de Souza Nogueira e Alcindo Nogueira.
A sede do Partido ficava na Rua Sete de Setembro, no.15, imóvel de sua propriedade.
No dia 08 de maio de 1.931, fundou a Associação de Pais e Mestres das Escolas Reunidas de São Miguel, destinada a um mútuo entendimento entre os pais dos alunos e os professores acerca dos problemas educativos da escola e o mais perfeito conhecimento das condições de vida dos alunos e de suas necessidades. 
A primeira diretoria ficou assim constituída: 
Presidente- Major Luiz Válio; Secretário: Narlir Miguel; Membros: professores Luiza Como, Floriza Barreto, cidadãos Edwiges Monteiro, que pedira exoneração do cargo de prefeito, sendo substituído por Leontino Arantes Galvão, Elias André e professor Ary Monteiro Galvão.
Foi o Major Luiz Válio o mentor da criação da primeira biblioteca escolar dentro do município, nomeando, nessa mesma data, uma comissão composta dos professores Ary Monteiro Galvão, Floriza Barreto e Luiza Como para angariar qualquer obra literária científica ou pedagógica, revistas ilustradas, dicionários, em suma, livros que proporcionassem leitura amena, sadia e proveitosa para todos os seus usuários.
O Major Luiz Válio teve um importantíssimo papel social na Revolução Constitucionalista de 32.
Quem escreveu sobre isso foi seu filho Luiz Válio Júnior.
Em 05 de setembro de 1.932 o 1º. Tenente da 2ª. Cia. do 2º. B. E., Tasso Pinheiro, assinou um recibo no seguinte teor:

S. Miguel Arcanjo, 5 de setembro de 1932.

Nesta data, recebi de Luiz Valio, DD.Delegado local, a fim de utilizar com a nova turma de sapadores, em organização na região do Taquaral de Baixo, o seguinte:
Enxadões com cabo..........................................................  8  (oito)
Enxadões sem cabo...  ........................................ 33 (trinta e três)
Picaretas sem cabo......................................................... 20 (vinte)
Foices...........................  ...................................................   7  (sete)
Chibancas com cabo...................................................   4  (quatro)
Cabos de machado...............................................  31 (trinta e um)
Cabos de enxada..............................................................  20(vinte)
Machados.......................................................................   4(quatro)
Pratos de folha................................................... 83 (oitenta e três)
Colheres.............................................................  76 (setenta e seis)
Canecas............................................................  72 (setenta e duas)
Caixa de salame............          ..........................................   1 (uma)
Caixas de ‘corned beef’....................................................   3 (três)
Caixa de chocolate...........................................................   1 (uma)
Latas de bolacha...............................................................   7 (sete)
Saco de sal.......................................................................   ½ (meio)
Lata de pão de guerra....... .............................................    1 (uma)
Saca de arroz....................................................................    1 (uma)

OBS: este documento estava em poder de Lucila Silva Valio e, hoje, faz parte do nosso acervo.
Há também um edital no seguinte teor:

‘O cidadão Major Luiz Valio, delegado de Polícia desta cidade e município de S. Miguel Arcanjo, etc...

Faz saber a todos que o presente virem ou dele notícia tiverem que, de ordem do cidadão Chefe de Polícia, ficam intimados todos quantos se achem de posse de armas de guerra e respectiva munição, bem como todo e qualquer objeto pertencente ou deixado pelas forças paulistas e federais que aqui estacionaram durante alguns dias, a fazerem entrega dos mesmos a esta Delegacia, dentro do prazo de 48 horas, para os moradores da cidade, e de 8 dias para os da zona rural, sob pena de processo e apreensão legal, além das demais penas estabelecidas pelos regulamentos militares.
E para que ninguém alegue ignorância, manda fazer o presente e mais três de igual teor, que vão afixados nos lugares de costume.
Dado e passado na Delegacia aos 11 de outubro de 1.932.’

OBS: Parece que houve denúncia de que os Fogaça tinham muitas armas escondidas num sítio havido como local de esconderijo da família e de seus parentes mais próximos, num total de 150 pessoas. 
Esta foto - histórica - tirada em 1.937 lembra que a prefeitura localizava-se à Rua Monsenhor Henrique Volta, no prédio que depois pertenceu a Evangelino Rosa do Nascimento.



A partir da esquerda, Eusébio Pereira, Edwirges Monteiro, Pedro Fabiano, Luiz Valio, Alfredo de Oliveira (Preto), Benedito de Souza, Nestor Fogaça, Virgílio Coelho e Santiago França. 
Na foto abaixo, de 1.943, quando se torna Prefeito. 




































O assentamento da pedra inicial das obras de construção da Igreja Matriz, ao lado de Benedito de Souza e Alcindo dos Santos Terra: o da esquerda é Luiz Valio.
Era o dia 01 de outubro de 1.944.
Luiz Valio tinha o passe de número 1.700 - 1a. classe - da Estrada de Ferro Sorocabana. A sua assinatura estava nele.
Abaixo, uma festa realizada no mês de outubro de 1.944, onde se vê o Major Luiz Valio (prefeito na época), de camisa branca e a esposa Cirila, de preto, distribuindo brindes à criançada. Ao fundo, o  casarão do Narlir Miguel e o Salão São Miguel, onde hoje estão o Supermercado e a Lanchonete dos Irmãos Silva.





Nessa foto vê-se ainda a professora dona Mimi, na ponta da divisória à direita; na outra ponta, Maria Olímpia de Jesus com dez anos de idade, ela que seria mais tarde nora do Major; também se vê Maria Valio, Lurdinha Piedade e outros.
Por ocasião das festividades pelas Bodas de Ouro do casal em 1.950, quem esteve presente foi o Bispo Dom Aguirre.
Luiz Válio faleceu em 03 de setembro de 1950, às 19:00 horas, quase três meses depois de festejar as Bodas de Ouro de seu casamento que foi uma festa inesquecível.
Quando seus inimigos políticos souberam que estava morrendo, começaram uma algazarra e logo uma passeata se fez dando voltas pelo quarteirão onde a família morava.
Foi preciso que os irmãos usassem de muita energia nesse momento para que Luiz Válio Júnior, o Gijo, não perdesse a cabeça, pois se dispôs a atirar em quem passasse em frente ao casarão da família.
Por proposta de Francisco Fogaça de Almeida, o Cirico (ironia?), através do processo 18/50, convertido na Lei no. 70/ 50, foi concedida pela Câmara Municipal uma sepultura em caráter perpétuo e gratuito em nome do Major.
A família de Cirila foi consagrada ao Sagrado Coração de Jesus no dia 25 de junho de 1.961, pelo padre Francisco Ribeiro.
A querida esposa Cirila faleceu aos 14 de setembro de 1964, exatamente às dezoito horas, quando era costume no lugar o sino da Matriz soar chamando para a última missa do dia.
Por ocasião do falecimento da mãe, o filho Luiz Válio Júnior mandou imprimir um poema de sua autoria intitulado ‘A Grande Dor’ no “santinho” distribuído durante a missa de sétimo dia, mandada rezar na igreja católica. Assim:

A Grande Dor 


(Luiz Válio Júnior) 

Jamais imaginei em toda vida 

Sentir tão profunda, angustiante dor, 

Quando um dia perdi a mãe querida 

Aflição incontida do mais puro amor. 


Que melancolia, que cruel sentença, 

Que rude e tempestuosa reprodução 

De uma tristeza, na alma, imensa, 

Que enorme rasgo no coração. 


Que mais me resta afinal, senão, 

Recordar, ao seu lado, dias queridos, 

Buscando sempre seu consolo, então, 

Aos meus instantes mal vividos. 


Rezarei por vós, prometo agora, 

E, em minhas orações, evocarei, 

A uma santa, minha mãe outrora, 

Meiga santa Cirila, eu rezarei. 


Suplicarei depois, nas devoções, 

Ao Criador, Pai Supremo do poder, 

Para que em outras gerações, 

Não deixe uma mãe morrer. 

Na sessão da Câmara no dia 15 de setembro de 1.964, o vereador Francisco Fogaça de Almeida solicitou após ouvido o Plenário, que fosse consignado um voto de pesar pelo falecimento de dona Cirila Nogueira Válio, esposa do ex-prefeito senhor Luiz Válio, que teve dois filhos vereadores, os senhores Aristeu Válio e Luiz Válio Júnior, que prestaram serviços à Câmara Municipal desta cidade, solicitando ainda que se comunicasse à família Válio. 
Foi aprovado por unanimidade. 

Os vereadores da época: Wadih Hakim, Norihiro Murakami, Miguel R. Ferreira, Francisco Fogaça de Almeida, José Borges Martins, Geraldo Piedade, Amador Nunes, João Agostinho, Alcidino França, José França e Salvador de Oliveira. 


PARA CONSTAR:

Nos “arredores” e na “capital”: as pesquisas da Sociedade de Etnografia e Folclore (1937-1939)


Luísa Valentini

Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social / USP

Temos também os bailados em que a dança se mistura à representação, tais como a congada, o moçambique, os caiapós e o bumba-meu-boi. Este último, ainda tão intensamente vivo no Nordeste brasileiro, já quase desapareceu aqui. Sei dele apenas em algumas cidadezinhas do litoral, e ultimamente tive a surpresa, por um programa das festas do Divino, de saber que o bumba-meu-boi ainda permanece entre os caipiras do Santo Amaro. Mas na realidade já me acostumei a reconhecer que justamente os arredores da Capital são verdadeiros mananciais de surpresas folclóricas. [...] a nossa lustrosa capital é toda orlada assim dum caipirismo tenaz, que em vinte minutos de automóvel nos transporta da autêntica atualidade universal do marco zero a um passado antiqüíssimo em que ainda revivem as danças indígenas e a conversão delas ao catolicismo pela mão adestrada dos Jesuítas.(Mário de Andrade, Revista do Arquivo Municipal nº XXXIV, p. 203-204)

A Sociedade de Etnografia e Folclore (SEF) (www.centrocultural.sp.gov.br/livros/pdfs/sef.pdf), fundada em 1937 como um órgão vinculado ao Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo e cujas atividades duraram cerca de dois anos, é uma experiência pouco visitada na história das ciências sociais no Brasil. Com exceção dos trabalhos publicados por Lélia Gontijo Soares (1983), Silvana Rubino (1995) e Marta Amoroso (2004), que se debruçam mais exclusivamente sobre ela, as considerações existentes sobre a SEF vêm, em geral, associadas a análises das iniciativas do Departamento sob a direção de Mário de Andrade (1935-1938), da fundação da Universidade de São Paulo e da Escola Livre de Sociologia e Política e, mais particularmente, da passagem de Claude Lévi-Strauss e sua então esposa, Dina Dreyfus, pelo Brasil (1935-1939) [2]. Isso não é de se estranhar, pois são de fato esses intelectuais e essas instituições os principais envolvidos na criação da Sociedade. São breves e pouco sistemáticas, no entanto, as recensões dos objetos, das práticas de pesquisa e das referências mobilizadas pelos pesquisadores que integraram esse grupo, elementos que podem ser observados nos arquivos relativos a essa experiência e que permitem um acompanhamento bastante minucioso das atividades de pesquisa ligadas a esse que Rubino (1995, p. 485) lembrou ser “[...] um projeto político e cultural tão ambicioso quanto de curta duração [...]”.
Pretendo organizar aqui um primeiro mapeamento dos temas e problemas aos quais os sócios da SEF dedicaram sua atenção, e das formas pelas quais eles realizaram suas explorações, concentrando-me na constituição da cidade de São Paulo e de seus entornos como paisagens para as pesquisas em etnografia e folclore, tais como estas disciplinas foram definidas nesse grupo. Se a criação da Sociedade, por uma série de razões, não foi um esforço bem sucedido, ela interessa pelo conjunto de debates, referências e práticas que mobilizou em torno das idéias de nação e de ciência. Neste levantamento, considerarei especialmente os documentos depositados no Fundo Sociedade de Etnografia e Folclore do Centro Cultural São Paulo (São Paulo, Brasil) e a coleção da Revista do Arquivo Municipal, que funcionava no período em questão como publicação oficial do Município, mas também como revista de vulgarização de trabalhos cujas temáticas interessavam aos propósitos do Departamento de Cultura (Rubino, 1995) [3].
O primeiro conjunto documental de interesse aqui é o conjunto das apostilas do “Curso de Etnografia” ministrado por Dina Dreyfus, a convite de Mário de Andrade, entre os meses de abril e outubro de 1936. Esse curso, que precedeu e originou a SEF, foi desenhado, segundo resumo da aula inaugural publicado no jornal O Estado de São Paulo, para atender a uma demanda do Departamento de Cultura de treinamento a “[...] funcionários municipais da capital e do interior, professores primários, instrutoras de parques infantis [...]” [4]. Estes alunos deveriam se tornar os produtores de um arquivo de consulta útil tanto para as ciências sociais, como para as políticas públicas e, segundo um projeto que Mário de Andrade vinha construindo e defendendo desde a publicação do Ensaio sobre a música brasileira [1926], para o desenvolvimento de uma arte nacional [5]. Nesse mesmo texto, Dreyfus definiu o conteúdo adequado a esses propósitos como “[...] um método geral imediatamente aplicável no campo de trabalho [...]” (Dreyfus, 1936a).
Esperava-se desse “método geral” que sua aplicação fosse fácil a pessoas sem formação nessas áreas, e que ele ordenasse a “colheita” de informações segundo uma “orientação científica”, conforme explicou Mário de Andrade na fala de abertura do curso (SEF, doc. 3)[6]. Para tanto, Dreyfus planejou as aulas conforme um modelo amplamente difundido na pesquisa antropológica do início do século XX, qual seja o das instruções a pesquisadores “leigos” que coletariam informações nas colônias para as grandes instituições metropolitanas de pesquisa, tendo como referências principais os cursos de Marcel Mauss no Instituto de Etnologia que deram origem ao Manuel d’Ethnographie [7] [1947], e os Notes and Queries in Anthropology editados periodicamente pelo Royal Anthropological Institute, de Londres.
Embora aberto ao público mais amplo, o curso atingiu também estudantes universitários, especialmente alunos das recém-fundadas Escola Livre de Sociologia e Política e Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, que pareciam não contar naquele momento com um treinamento específico para o trabalho de campo [8]. Alguns desses estudantes, como Lavínia Costa Villela e Mário Wagner Vieira da Cunha, somados a funcionários do Departamento de Cultura que acompanharam o curso, como Oneyda Alvarenga, encarregada da Discoteca Pública Municipal, Nicanor Miranda, responsável pelos Parques Infantis do município e Antonio Rubbo Müller, da Sub-Divisão de Documentação Social, estiveram entre os participantes mais ativos da Sociedade, juntamente a professores universitários como Lévi-Strauss, Plínio Ayrosa e Samuel Lowrie, definidos em alguns documentos como “etnógrafos”.
O propósito de constituir um “arquivo etnográfico” ou “arquivo de etnografia e folclore” – expressões que serviram de nome à seção da Revista do Arquivo onde se publicavam os trabalhos de interesse da SEF – implicava uma delimitação disciplinar cara a Dina Dreyfus no seu esforço de enfatizar a separação entre os momentos de registro e de análise na produção do conhecimento. Nas Instruções Práticas para Pesquisas de Antropologia Física e Cultural escritas por Dreyfus e publicadas pelo Departamento em 1937, ela apontou, em uma outra versão do texto de sua aula inaugural, que:
A Etnologia é teórica, como toda ciência constituída; e nesta qualidade apresenta caracteres incompatíveis com as pesquisas práticas: é sistemática, explicativa e generalizadora. Seu esforço é essencialmente sintético. Inteiramente diverso é o papel da Etnografia. Esta é mais um estudo descritivo e monográfico dos povos e de sua vida cultural, do que propriamente uma ciência (Dreyfus, 1936b, p. 8).
Quanto ao folclore, o outro campo de interesses da SEF, a sua definição era mais complicada:
Folclore significa estudo das manifestações culturais populares. Podemos dizer que o folclore está para a etnografia como a etnografia para a etnologia. Isto é, há entre estes ramos de pesquisas uma diferença de generalidade. O folclore se faz sobre uma base mais limitada que a etnografia propriamente dita e por isso mesmo estuda seu objeto mais detalhadamente.
Em relação à etnografia, o folclore se caracteriza:
– Por pertencer mais ao domínio espiritual, levando em conta o fator psicológico, enquanto a etnografia se limita quase exclusivamente aos elementos materiais.
– Por se ocupar principalmente das manifestações culturais dos povos chamados civilizados, enquanto a etnografia se consagra especialmente aos povos primitivos.
Geralmente o etnógrafo especializado não se ocupa do folclore. Neste curso, entretanto, que se destina a satisfazer as condições particulares dos que o seguem, o folclore será um dos pontos do programa (SEF, doc. 8).
A conclusão desse trecho, bem como as diferenças entre o primeiro projeto de curso enviado por Dreyfus a Mário de Andrade e o curso efetivamente realizado, sugerem que a associação do folclore à etnografia atendia à pesquisa e à política cultural conduzidas por Mário nesse momento. Nas aulas de folclore foram ensinados os métodos de registro da arte decorativa, de “contos, lendas, mitos e provérbios”, de jogos, que interessavam no projeto pedagógico dos Parques Infantis do município (cf. Faria, 1999), e das temáticas a que Mário mais se dedicava: a música e “a dança e o drama”, sobre os quais escrevia naquele momento o que vieram a ser os três volumes das Danças Dramáticas do Brasil [1934-1944]. Mais afins à etnografia, segundo a definição adotada por Dina, eram as aulas de cultura material, quando se estudaram critérios de coleta, a classificação dos objetos para a constituição de fichas, e as classificações disponíveis para habitação, técnicas de obtenção do fogo, armas e instrumentos, arcos e flechas, tecelagem e cerâmica. Somavam-se à etnografia e ao folclore, no programa do Curso, uma seção de antropologia, referente a medições, marcadores raciais e análises fisiológicas, e ainda uma aula de lingüística, com a indicação das perguntas a serem feitas e o modo de sistematizar a gramática e a fonética.
A dupla distinção entre etnografia e folclore – fundada numa diferenciação tanto das populações estudadas como de questões de interesse – parece eficaz para organizar os diferentes tipos de pesquisas realizados pelos investigadores associados à SEF, embora a delimitação desses “ramos de pesquisas” estivesse sujeita a oscilações no material aqui considerado. Se a etnografia, num sentido mais restrito de estudo dos povos ameríndios e especialmente de sua cultura material, aparece em apenas três das conferências realizadas em reuniões da Sociedade – pelo catedrático de Etnologia e Tupi-Guarani da USP, Plinio Ayrosa (“Anhangá e Jurupari”) e por Claude Lévi-Strauss (“A civilização material dos índios Kadiueu” e “Algumas bonecas Karajá”) – as pesquisas efetivamente estimuladas pela Sociedade seriam facilmente organizadas sob a rubrica do folclore, mobilizando objetos como “danças”, “festas”, “cerimônias”, “superstições” e suas variantes, na maior parte das vezes acompanhadas pelo adjetivo “popular” [9]. Por outro lado, na fala de abertura do curso de etnografia feita por Mário, a compreensão da cultura brasileira na chave do primitivo e do “caráter nacional” em formação permitia atribuir à etnografia um recorte mais amplo que o das populações ameríndias estudadas por Ayrosa e Lévi-Strauss, visando o que ele definiu como “o conhecimento da formação cultural do nosso povo” (SEF, doc. 3). A primeira parte da definição de “folclore” por Dina Dreyfus insinuava, ademais, que este poderia ser considerado uma parte da etnografia, idéia que ela põe em prática no curso ao dar exemplo de danças e jogos observados entre os Bororo e os Kadiwéu (SEF, docs. 12 e 13) [10].
O primeiro esforço de pesquisa da SEF consistiu na produção de dez “cartas folclóricas” como forma de participação do Departamento de Cultura de São Paulo no Congresso Internacional do Folclore que se realizaria junto à Exposição Universal de Paris em 1937. A “cartografia folclórica” seria o tema de debate metodológico no Congresso; além disso, um conjunto de trabalhos cujas leituras foram compartilhadas por Mário de Andrade e pelo casal Lévi-Strauss tinha na construção de mapas um momento fundamental da produção de conhecimento: os trabalhos do etnólogo alemão Leo Frobenius (1873-1938), do francês Georges Montandon (1879-1944), e dos norte-americanos de origem germânica Alfred Kroeber (1876-1960) e Robert Lowie (1883-1957) [11].
Contribuíram no desenho da metodologia a ser adotada na produção dos mapas o especialista em estatística da Sub-Divisão de Documentação Social do Departamento de Cultura, Bruno Rudolfer, o catedrático de Geografia Humana da USP, Pierre Monbeig, além de Dina Dreyfus (SEF, doc. 68). O material disponível no acervo da SEF relata que a pesquisadora fez uma conferência intitulada “Que é o folclore?” e que Monbeig falou da “representação cartográfica dos fenômenos humanos” (Boletim da Sociedade de Etnografia e Folclore, nº1). Não encontramos registros da fala de Monbeig e da aula de Dreyfus; existe apenas um resumo na ata da quarta reunião da Sociedade, do qual parece faltar uma página, mas que de saída reapresenta a preocupação com a profissionalização da pesquisa e com a posição do folclore na classificação disciplinar:
Em sua ligeira e brilhante palestra, a conferencista delineou o histórico dos estudos folclóricos: a princípio considerados apenas um agradável passatempo, sem valor cientifico, foram mais tarde considerados como ramo da etnografia. O arqueólogo inglês John Thoms foi o primeiro a empregar o termo folk-lore, querendo abranger com estas duas palavras - folk, povo, lore, saber – tudo quanto era designado por “antiguidades populares” e literatura popular. A partir dessa data – 1846 – a expressão folclore foi sendo empregada, encontrando resistência por toda a parte, até que Sebillet a consagrou. À medida que a etnografia fixava seu objeto e seu método científico, o folclore beneficiava desse desenvolvimento [...] pode considerar-se folclore o estudo da tradição popular. Isto é, estudo de quanto o povo sabe, pratica, diz, escreve – distinguindo-se dos conhecimentos científicos, das práticas racionais, da arte, ciência da “sabedoria popular”, da tradição, que merece ser estudada e conservada (SEF, doc. 66).
No Fundo SEF encontram-se também os projetos para o questionário que daria origem aos mapas, que, quando concluído, foi enviado “[...] a todos os inspetores escolares e diretores de grupos, a todos os médicos e juízes de paz [...]”, com a ajuda das casas comerciais de São Paulo que lhes cederam sua lista de clientes (SEF, doc. 290). Bruno Rudolfer, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo republicada naRevista do Arquivo, comentou os “aspectos folclóricos” a serem mapeados, entre os quais dois parecem se reportar diretamente às pesquisas de Mário de Andrade (cf. Amoroso, 2004) que dariam origem aos trabalhos Danças Dramáticas do Brasil [1934-1944]e Namoros com a Medicina [1937]:
Os temas escolhidos visaram bem representar alguns aspectos folclóricos. As proibições alimentares participam do tema da alimentação quotidiana e, mais particularmente, das crenças e superstições relativas ao alimento. As danças, elemento essencial das festas, se classificam entre as manifestações principais da arte popular. Finalmente, a cura do terçol com anel representa um aspecto especial da “medicina” popular. (RAM nº XXXIX, p. 286).
Ao final do levantamento, os “mapas de folclore” enviados ao Congresso em Paris tinham os seguintes títulos: “Medicina Popular - Cura do terçol com anel”; “Proibições alimentares relativas à manga”; “Danças populares - Samba ou Batuque”; “Danças populares - Cateretê ou Catira”; “Danças populares - Caiapó e suas variantes fonéticas”; “Danças populares - Congada e suas variantes fonéticas”; “Danças populares - Cururu ou Caruru”; “Mapa das unidades territoriais”; “Proibições alimentares - Leite com Frutas”; “Zona estudada”. O último dos mapas é significativo por revelar a extensão da pesquisa: são relativamente poucas as áreas sem levantamentos (SEF, doc. 207) [12].
O contraste visual deste último mapa surpreende, pois a chamada para o envio de informações foi feita de modo precipitado: o convite de Mário aos inspetores de ensino data de 5 de abril e o Congresso se realizaria no final de junho. Isto explica, ao menos em parte, os esforços retóricos de Mário e Dina na divulgação do projeto. Ao Diário da Noite, Mário declarou no início dos trabalhos: “É uma tentativa audaciosa, mas não tentar seria uma covardia. O Congresso Internacional de Folclore que se reunirá em Paris a 25 de junho próximo mandou um convite especial para o Departamento de Cultura fazer-se nele representar com trabalhos seus” (SEF, doc. 290). A carta aos inspetores de ensino era concluída da seguinte forma:
Nem cabe ao Departamento de Cultura enaltecer a colaboração de V. S., porque V. S. participa com a mesma intensidade e vigor do possante organismo do nosso Estado, a principal entidade que se beneficiará deste empreendimento. (RAM nº XXXIV, p. 202)
Nesse convite, o tema do pioneirismo paulista – vigoroso apenas cinco anos depois da Revolução Constitucionalista e recorrente na Revista do Arquivo (Rubino, 1995) – articula o sentido experimental da aplicação do método e o projeto de expansão geográfica da pesquisa a partir da base municipal: “Tratando-se de um empreendimento novo entre nós, bem como na América, a área abrangida por esta primeira tentativa de aplicação de um método científico de estudo dos fatos folclóricos é apenas a do Estado” (RAM nº XXXIV, p. 201). Essa flexibilização de fronteiras, da capital para o estado e do estado para o país, teve seu momento máximo com o envio da Missão de Pesquisas Folclóricas em 1938 ao Norte e Nordeste do Brasil [13].
Em artigo publicado no O Estado de São Paulo, já em meio aos trabalhos com as respostas aos questionários, Dreyfus relatava:
A 5 de abril partiam os primeiros questionários folclóricos redigidos pela Sociedade de Etnografia e Folclore [...] dia a dia as respostas afluíram em número tão considerável que os mais pessimistas se calaram, e os mais otimistas viram ultrapassadas as suas esperanças. Hoje, mais de 700 respostas estão em elaboração[14]. (SEF, doc. 296)
Nesse mesmo artigo, a etnóloga fala do questionário como “[...] instrumento de trabalho coletivo [...]”. Também na abertura do primeiro Boletim da Sociedade de Etnografia e Folclore era reforçado o sentido de esforço coletivo para a instauração de um “trabalho realmente científico”, com ênfase no folclore, mais que na etnografia:
O nosso Boletim a essas pessoas se dirige especialmente, e a quantos interessados da realidade nacional, amantes de nossa gente e suas tradições, queiram se unir conosco para um trabalho realmente científico de folclore, cuja natureza ainda não foi aplicada no Brasil. Nossos trabalhos são de natureza coletiva. Nenhum de nós pessoalmente se exalta com pesquisas e estudos que a Sociedade faz e publica em seu nome. O mérito é de todos e o benefício é nacional. (Boletim da SEF nº 1)
Do ponto de vista do avanço da ciência – o objetivo principal do Congresso de Folclore em Paris fora justamente “[...] promover o acesso do Folclore ao campo das ciências antropológicas [...]” (Boletim da SEF, nº 3) – os mapas contribuíam por permitirem a separação entre o fenômeno folclórico e as fronteiras político-administrativas:
Tais mapas transparentes apresentam vantagens incontestáveis, permitem, de uma só vez, a apresentação destacada do fenômeno independente das divisões e acidentes geográficos que, como dissemos, se vêem no mapa-base e o estabelecimento da correlação de certos fenômenos pela superposição das cartas respectivas que, no caso em apreço, possibilitaram pôr-se em evidência as relações de identidade folclórica em certas zonas (RAM nº XXIX, p. 286).
Os modos de realizar essa separação eram um problema que ocupava a Sub-Divisão de Documentação Social do Departamento de Cultura. Seu encarregado, Sérgio Milliet, apresentou, no Congresso da População realizado no mesmo contexto da Exposição Universal de 1937, um trabalho intitulado “A representação dos fenômenos demográficos”. No texto da conferência, publicado pela Revista do Arquivo, explica-se que o procedimento adotado pela Documentação Social foi organizar os dados do recenseamento estadual de 1935 referentes à cidade de São Paulo por “[...] quarteirões e faces de quarteirão, unidades menores, naturais, quase imutáveis e de grande homogeneidade [...]” em substituição ao recorte nos distritos de paz, “[...] unidades políticas mal-definidas e heterogêneas [...]” (Milliet, 1938, p. 214).
Observando os trabalhos realizados na cidade de São Paulo e publicados na Revista do Arquivo Municipal durante o período de atividade da SEF, encontraremos diversos levantamentos estatísticos sobre a população da cidade de São Paulo, que visavam diagnósticos e previsões quanto ao seu “nível de vida”, à distribuição das diferentes “etnias” e às possibilidades de integração “racial” e “cultural” entre esses grupos. Os mapas produzidos para a apresentação no Congresso da População em Paris, que visavam a “[...] ilustração do método, tão somente [...]”, eram transparentes como os mapas folclóricos e representavam a “Densidade das crianças em idade escolar no quarteirão”, a “Distribuição por quarteirão de brasileiros filhos de brasileiros”, a “Distribuição por quarteirão de brasileiros” e a “Porcentagem de sírios na população geral, por quarteirão” nas regiões da Sé e de Santa Efigênia (RAM XLI, p. 308). Sérgio Milliet reforçava os resultados do recenseamento com uma evocação da paisagem da rua 25 de março:
[...] verificamos que a concentração de orientais-próximos nas ruas 25 de março e adjacentes é enorme. Pois o fato de se compor a população de um bairro da cidade de 3/5 a ¾ de indivíduos pertencentes a determinado grupo cultural estrangeiro indica claramente que o ambiente não pode favorecer a rápida assimilação dos imigrantes. Para comprovar a afirmação bastará caminharmos por aquela rua, ouvirmos a língua falada e a música das lojas, observarmos a comida servida nos restaurantes. A zona quase inteira é essencialmente próximo-oriental (Milliet, 1938, p. 217).
As possibilidades de “assimilação” dos sírios já haviam sido tematizadas em trabalho publicado na Revista do Arquivo pelo Dr. Rafael Paula Souza, do Instituto de Higiene da Faculdade de Medicina. Esse trabalho, sugestivamente intitulado “Contribuição à etnologia paulista”, era definido como um “estudo biotipológico do universitário paulista” que envolveu “[...] 512 estudantes, dos quais somente 11 eram estrangeiros [...]”. O estudo de Paula Souza parece ter se concentrado especialmente na ascendência dos universitários estudados, de modo a aferir o “índice de fusibilidade” de cada “etnia” existente na amostra, usando metodologia e conceitos desenvolvidos pela socióloga americana de origem ucraniana, Bessie Bloom Wessel (1889-1969). Assim, Paula Souza procurava averiguar o quanto cada etnia contribuía com o “melting pot” da elite paulista – as “etnias brasileiras” eram classificadas segundo os Estados de proveniência dos estudantes e seus ascendentes. Os brasileiros de origem síria estudados – pelo que o trecho revela, na sua maioria homens – não pareciam ser muito predispostos à fusão, embora já “paulistanizados”:
[...] nossos resultados mostram que, pelo menos até o presente, a fusão desse grupo na elite que examinamos é muito precária. Concordam eles com os obtidos em diferentes países e sabemos que, embora em vida social íntima com o restante da população, seus enlaces se processam quase sempre entre sua própria colônia. É digna de registro essa preferência, pois apesar de perfeitamente paulistanizados, nos acompanhando mesmo em momentos absolutamente críticos, no matrimônio escolhem as paulistas ou paulistanizadas, mas com ancestrais de sua própria origem, quer por motivos religiosos, princípios educacionais, tradicionais, ou outros (Paula Souza, 1937, p. 101-2).
Embora trate mais da ascendência dos estudantes que de medidas, traços fisionômicos e outros “marcadores raciais”, esse estudo estava em consonância com uma proposta feita por Lévi-Strauss, em 1935, na apresentação de um projeto para a criação de um “Instituto de Antropologia Física e Cultural” da Universidade de São Paulo. O jovem professor sugeriu nessa ocasião testar os resultados do trabalho de Boas com a medição dos corpos dos imigrantes e seus descendentes em Nova York, lembrando as vantagens de uma certeza científica com relação à plasticidade dos tipos físicos, tanto do ponto de vista da ciência, como da política de imigração:
Se as conclusões de Boas devessem ser reconhecidas como erradas, importante contribuição ao estudo do homem teria sido fornecida pelo Brasil. Se, pelo contrário, elas fossem comprovadas, mesmo parcialmente, precioso elemento de informação viria servir a política brasileira da imigração (Lévi-Strauss, 1935, p. 251-252).
Dreyfus, na aula inaugural do curso de etnografia, havia somado à questão “física”, o problema da “síntese” cultural:
[...] saber com precisão e graças a um inquérito completo, quais são as culturas estrangeiras que desaparecem, quais as que subsistem, quais, enfim, as que permanecem, formando com a cultura brasileira uma síntese harmoniosa. Assim poderia ser realizada uma seleção vantajosa para o Brasil nas diversas correntes migratórias, de molde a receber as etnias, cujos elementos utilizáveis se mantêm e progridem, tanto do ponto de vista físico, como do ponto de vista cultural e recusar as que são chamadas a se desagregarem (Dreyfus, 1936b, p. 17).
Nesse sentido, a perspectiva de Paula Souza para o futuro do estado de São Paulo era otimista:
Essa grande capacidade de cruzamento do paulista (19,0% de homogêneos, quando a população universitária conta com 41,8% de ancestrais paulistas), não só com brasileiros por aqui transferidos como com estrangeiros, favorece a fixação definitiva do elemento estranho, já atraído pelas outras condições ambientes favoráveis, abrasileirando rapidamente o estrangeiro e paulistanizando o brasileiro de outras paragens (Paula Souza, 1937, p. 104).
“Homogêneo”, no vocabulário adotado por Paula Souza, queria dizer descendente de indivíduos de “mesma origem”. “Heterogêneo”, por conseguinte, descendente de indivíduos de “origens diversas”. Quando o autor afirma que apenas 19,0% dos paulistas são “homogêneos”, ele na verdade comemora que 81,0% sejam “heterogêneos”, sendo um dos pais de “origem paulista”. O reconhecimento de que o “índice de fusibilidade baixo” de “etnias” como os sírios e japoneses resultava provavelmente de sua imigração recente, e que tenderia a aumentar ao longo do tempo, também contribuía para o tom otimista da avaliação de Paula Souza (Paula Souza, 1937, p. 101). A Revolução Constitucionalista de 1932 somava-se, por fim, às provas da potencial “miscigenação paulista” – o que demandava a recusa de algum caráter separatista na comemoração dos resultados:
É essa miscigenação paulista que permite a conservação de nossa nacionalidade, chegando mesmo até ao regionalismo do estrangeiro aqui radicado, como se observou na revolução de 1932, em que a bandeira, levantada por São Paulo, congregou todos os habitantes do Estado. [...] A formação do caráter nacional tem aqui forte reduto, e seu acusado regionalismo não implica idéias seccionistas enraizadas. Ser regionalista é ser patriota e esse grupo heterógeno, que compõe São Paulo, o é ascendramente. (Paula Souza, 1937, p. 104-105)
Um outro trabalho, “Pesquisa sobre a mancha pigmentária congênita na cidade de São Paulo”, realizado como conclusão do Curso de Etnografia pelas alunas da Faculdade de Filosofia, Cecília Castro e Silva e Maria Stella Guimarães, também contabilizava a ascendência dos habitantes de São Paulo, mas dessa vez, associada a um “marcador racial” em particular, a “mancha mongólica” ou “mancha pigmentária congênita”, objeto de uma das aulas de “antropologia física” do curso. Essa pesquisa era a continuação de levantamentos realizados por Dina Dreyfus em 1935, na Clínica Obstetrícia da Faculdade de Medicina de São Paulo, para, segundo Lévi-Strauss, “estabelecer no Brasil estatísticas da freqüência dessa importante característica racial que é a mancha mongólica, atualmente em vias de elaboração no Laboratório de Antropologia de Paris” (Lévi-Strauss, 1935, p. 252). O principal problema com o qual essas estatísticas contribuiriam era, conforme explicou Dina em uma das aulas de antropologia física, determinar “[...] a difusão da raça mongólica no mundo [...]” (SEF, doc. 6), contribuindo, provavelmente, com o problema do povoamento do continente americano – no qual trabalhava, especialmente, Paul Rivet, primeiro diretor do Museu do Homem de Paris, fundado em 1937.
Entre agosto de 1936 e março de 1937, Castro e Silva e Guimarães se dedicaram, a “examinar” um total de 600 recém-nascidos e a entrevistar suas mães. O levantamento foi, ao menos em parte, financiado pelo Departamento de Cultura, que imprimiu as fichas timbradas (“Departamento de Cultura – Divisão de Expansão Cultural”) utilizadas pelas duas estudantes (Castro e Silva; Guimarães, 1937, p. 48-49). O vereador Antonio Vicente de Azevedo, respondendo na Câmara Municipal às críticas feitas em fins de 1936 aos gastos do Departamento de Cultura pelo vereador Silvio Margarido, lembrou ser “[... ] a primeira vez que se faz no Brasil esta importantíssima pesquisa antropológica [...]” (RAM nº XXVIII, p. 292). Foi essa, no entanto, a única adesão, entre os alunos do Curso de Etnografia, ao programa de antropologia física.
Samuel Lowrie, professor da Escola Livre de Sociologia e Política, também analisou levantamentos da ascendência de crianças que freqüentavam os Parques Infantis da Prefeitura (Lowrie, 1937a, 1937b). O trabalho de Lowrie em torno da ascendência das crianças ainda se desdobraria, pela agregação dos dados recolhidos nas pesquisas de Paula Souza, Castro e Silva e Guimarães, no artigo “Origem da população da cidade de São Paulo e diferenciação das classes sociais” (Lowrie, 1938), na direção de outros levantamentos do “nível de vida” e de outros “problemas sociais” realizados no quadro do Departamento [15].
Se os levantamentos estatísticos na cidade de São Paulo visavam especialmente o delineamento de políticas públicas, os folclóricos, por sua vez, tinham como tarefa anterior a promoção da pesquisa “científica”, em folclore fosse através da realização de pesquisa “coletiva” por “pesquisadores em arquivos e em bibliotecas”, como se especificou nos seus Estatutos (SEF, doc. 60), fosse pelos esforços de adequação da produção dos “pesquisadores não profissionais” dispersos em São Paulo e no Brasil. Através da produção de arquivos e mapas, a SEF articulou diversas formas de pesquisa que eram praticadas pelos pesquisadores nela envolvidos. O primeiro projeto da Sociedade nesse sentido referia-se à produção de um “vocabulário etnográfico nacional”, segundo proposta feita por Dina ainda em 1936 [16]. Esse vocabulário, também chamado “dicionário etnográfico e folclórico”, contemplaria, segundo projeto esboçado por Mário, “termos técnicos da ciência etnográfica e folclórica”, como “frátria” e “termos técnicos de natureza etnográfica e folclórica”, como nos explicam os exemplos listados, “puíta” e “dandão”,um léxico das manifestações folclóricas e da cultura material no Brasil [17] (SEF, doc. 351).
Assumindo a tarefa de recolher as informações dispersas na literatura já existente sobre o folclore, a SEF começa, em dezembro de 1937, a organizar uma cronologia das festas populares brasileiras. Esse tipo de trabalho em arquivo tinha afinidades com as investigações não só de Plinio Ayrosa, membro do Instituto Histórico e Geográfico, mas também com as de Mário de Andrade e as de Lévi-Strauss, que complementavam suas observações de campo com informações de fontes diversas, de modo a rastrear a distribuição e o percurso histórico dos fenômenos estudados.
A reconstituição histórica das origens e desenvolvimento dos “aspectos culturais” associados à “formação cultural do nosso povo” era a finalidade última também da utilização da cartografia como forma de sistematizar as informações “etnográficas e folclóricas” recolhidas pelos pesquisadores. Do ponto de vista do estímulo a esse tipo de pesquisa e da constituição da “etnografia” e do “folclore” como disciplinas científicas, no entanto, a realização dos mapas foi interrompida numa etapa preliminar: a constituição de uma rede de pesquisadores leigos distribuídos pelo estado de São Paulo. Esses pesquisadores, que receberam o título de “delegados” da Sociedade de Etnografia e Folclore, foram selecionados segundo a qualidade das respostas aos questionários pelo “conselho técnico” da SEF – composto por Bruno Rudolfer, Dina Dreyfus, Lévi-Strauss, Rafael Paula Souza, Plínio Ayrosa e Oneyda Alvarenga.
A convocatória em torno dos mapas e a constituição dos delegados da SEF teve, ainda, o efeito de mobilizar os autores de trabalhos sobre folclore em torno do envio de informações manuscritas, artigos e fotografias para a SEF, anexos a diversas das cartas recebidas – obrigação, de resto, regulamentada em estatuto:
Art. 32 – A Sociedade poderá designar entre seus membros residentes ou correspondentes, por indicação do conselho técnico, delegados aos quais se atribuirá a seguinte missão, relativa ao bairro, cidade ou região de que se incumbir:
1) – Trazer a Sociedade ao corrente de qualquer acontecimento de interesse etnográfico ou folclórico;
2) – Tomar a iniciativa de pesquisas etnográficas e folclóricas;
3) – Colaborar com os poderes públicos para assegurar a proteção, conservação e preservação de todos os documentos ou manifestações de caráter etnográfico e folclórico (SEF, doc. 60).
Encontramos no arquivo da SEF materiais diversos enviados pelos delegados no ano e meio em que a Sociedade esteve ativa. O jornalista Luiz Valio, delegado para os municípios de São Miguel Arcanjo, Pilar e Capão Bonito, por exemplo, encaminhou em novembro de 1937 fotografias de uma feira de palmitos, da fabricação do fumo de corda e da cidade de São Miguel: o largo da Matriz, estradas que ali chegavam, uma bomba a gás. Valio prometeu enviar informações sobre a “festa folclórica” no bairro do Taquaral, em São Miguel Arcanjo, assim como trabalhos de sua autoria publicados na imprensa local (SEF, docs. 75, 227). O professor Virgílio H. de Leme D’Ávila, delegado da SEF em Pinheiros, Vale do Paraíba, encaminhou o trabalho “O Rei Congo no Brasil” (SEF, doc. 90), que chegou a ser lido em reunião da SEF. De Gentil de Camargo, jornalista e delegado da SEF na região de Taubaté, Tremembé, Pindamonhangaba e no distrito de paz de Quiririm (e, eventualmente, S. Luís do Paraitinga e Ubatuba), foi publicado naRevista do Arquivo um “excerto do apêndice” de seu livro Sintaxe Caipira do Vale do Paraíba (então no prelo), onde tratou de temas afins aos dos mapas folclóricos – alimentação, receitas e tabus alimentares (com 21 tabus listados) – e apresentou desenhos de cozinhas “caipiras” e seus utensílios (Camargo, 1937). José Pedro Camões, organizador técnico do Museu Histórico Municipal de Taubaté e também delegado da SEF, remeteu uma notícia sobre a abolição da escravidão em Taubaté. A. de Faria, advogado e delegado em Guará, mandou um “estudo sobre o fiado”, intitulado “Pequena contribuição para o nosso folclore” (SEF, doc. 211).

Entre os sócios da SEF que se encontravam fora de São Paulo, Sebastião Almeida de Oliveira, tabelião em Tanabi, enviou no fim de 1937 o artigo “Anotações para o Folclore Negro” (SEF, doc. 238) e, pouco depois, “A cruz no folclore tanabiense” (SEF, doc. 249), escrito segundo as instruções preparadas por Dina Dreyfus que haviam sido publicadas no terceiro Boletim. Do interior de São Paulo foram também recebidos os trabalhos “Congadas”, de Mário Pinto da Luz (SEF, doc. 111), a monografia “Araraquara”, de Mota Coqueiro [18] (SEF, doc. 82), além de notas, muitas vezes manuscritas, sobre “usos e costumes”, “crendices”, “superstições” e outros tipos de “aspectos folclóricos” enviados por correspondentes, vinculados formalmente ou não à SEF.

Aproximando-nos agora das pesquisas de campo realizadas pelos sócios da SEF, encontramos na correspondência convites de delegados para visitas a festas populares, provavelmente motivados pela decisão de “[...] organizar passeios-conferências cujas possibilidades de realização prática ela se propõe examinar [...]”, comunicada no segundo Boletim. Idas coletivas a festas já haviam sido organizadas por esse grupo desde a época do Curso de Etnografia. Uma delas foi bastante documentada: a viagem à festa do Divino Espírito Santo de 1936 em Mogi das Cruzes.

No artigo “A entrada dos palmitos”, Mário de Andrade relata sua ida à festa em Mogi, em 30 de maio de 1936, para a realização de pesquisa de campo. Um dos rituais da festa lhe sugeria uma interpretação baseada no Ramo de Ouro (1890) de James Frazer (1854-1941):

Chegado a Mogi pelas doze horas do dia 30, para organizar as filmagens que o Departamento de Cultura realizaria no dia seguinte, cuidei de indagar o que era essa “Entrada dos Palmitos”. Infelizmente perdera a cerimônia que é tradicionalmente às primeiras horas da manhã. Como julgo ver nessa festa uma curiosa e ainda viva reminiscência do culto do vegetal da primavera no Brasil, venho comunicá-la para que os conhecedores mais completos dos costumes nacionais liguem a festa mogiana a outras do país e a estudem como tradição importada (Andrade, 1937a, p. 51).

Os filmes a que Mário se refere aqui são: “Festejos populares em Mogi das Cruzes – Cavalhada”, “Moçambique – Festa do Divino em Mogi das Cruzes”, “Festa do Divino Espírito Santo” e “Congada – Festa do Divino em Mogi das Cruzes”, os dois últimos assinados pelo casal Lévi-Strauss. Dina Dreyfus comentou em sua aula sobre “a dança e o drama” que “[...] A representação dramática é particularmente observável nas festas regionais. Nestas ocasiões – como por exemplo observou-se recentemente em Mogi das Cruzes – formam-se às vezes verdadeiras companhias temporárias de atores [...]” (SEF, doc. 12) [19].

Uma viagem à festa do Bom Jesus de Pirapora em 1937 é mais parecida com o que se poderia esperar de um “passeio-conferência”. Nessa ocasião, Mário Wagner Vieira da Cunha – aluno da Escola Livre de Sociologia e Política que apresentara como monografia final ao Curso de Etnografia um texto intitulado “Descrição da festa do Bom Jesus de Pirapora” – retorna à festa acompanhado do secretário de Mário de Andrade, José Bento Faria Ferraz, e de Lévi-Strauss, supomos que acompanhado por Dreyfus, primeira secretária da SEF. Mário de Andrade afirma ter apenas “[parado] uma noite [...]” na cidade para ver o samba, numa “[...] viagem que não se destinara especialmente a isso [...]”, mas suas anotações, e as de José Bento, constituíram a base do artigo “O Samba Rural Paulista” (Andrade, 1937). Pode-se dizer com alguma certeza que Lévi-Strauss foi a Pirapora nessa ocasião porque suas fotos de Pirapora (1994, p. 38-43) mostram o samba realizado na rua – fato inusual, pois as danças costumavam acontecer num “barracão” onde se alojava a população negra que freqüentava a festa. Como explica Mário Wagner:

Havíamos, no primeiro ano, observado uma forte reação da festa religiosa contra o desenvolvimento crescente da festa profana. Os pregadores religiosos censuravam, aqueles que vinham a Pirapora e se entregavam a toda sorte de pecados, esquecidos de seus deveres para com o Santo. Os seminaristas não saíam mais nas procissões porque se deseja proteger suas almas da contemplação de cenas e gestos indecorosos, tão comuns, nesses dias, pelas ruas de Pirapora. Em 1937, esta reação foi maior e mais direta: proibiu-se o samba no Barracão. Dada a conhecer com muita antecedência e tendo sido muito divulgada, esta proibição teve o efeito de fazer com que muitas pessoas deixassem, este ano, de vir para as festas. A acorrência era inferior à terça parte da do ano anterior. Por outro lado, essa proibição prejudicou extraordinariamente o samba. Foi preciso improvisar, de uma hora para outra, novo local para dançar. Sambaram no meio da rua. Uma poeira sufocante. Automóveis que, debaixo de um tinir enervante de buzina, se intrometiam no meio do grupo de dançadores. E muitas vezes o samba se dissolveu por causa da chuva. (Cunha, 1937, p. 30)

O quinto Boletim noticia outro tipo de trabalho conjunto: a partir das observações realizadas por Sara Ramos, aluna do Curso de Etnografia, nas cavalhadas de Franca em 1936, são realizadas três conferências em 26 de janeiro de 1938:Sara Ramos descreve as cavalhadas de Franca; Oneyda Alvarenga apresenta um levantamento de “notícias bibliográficas sobre cavalhadas” no Brasil e Mário de Andrade, um levantamento sobre a origem ibérica das cavalhadas. ...







MAJOR ELIAS VÁLIO - O PATRIARCA DOS VÁLIO EM PILAR DO SUL

O Major Elias Válio nasceu em Santa Marina, na Itália, no dia 8 de outubro de 1.860. 
Era filho de Dom Francisco Domingos Vito Paschoal Valio Trombetti, conhecido como Francisco Domingos Valio e ainda Domingos Trombetti, e de Anna Maria De Bôno Giudice, ambos italianos.
Segundo escritos deixados pelo seu saudoso sobrinho Luiz Válio Júnior e confirmados por outra sobrinha que ainda vive, Marina Branca Valio França, ambos de São Miguel Arcanjo, Domingos Trombetti veio sozinho para o Brasil escondido no porão de um navio: havia cometido um assassinato na Itália por força de ideais políticos.
Domingos Trombetti residiu e exerceu a agricultura em São Miguel Arcanjo e alguns anos depois mandou vir a família de Itália composta pela esposa e três filhos: Elias, José e Vicenza Valio.
A fim de agradecer a acolhida no país que escolheu para viver até o fim de seus dias, deu-lhe um filho genuinamente brasileiro. Seu último filho nasceu em São Miguel Arcanjo no ano de 1.880. Chamava-se Luiz.
Os avós paternos de Elias Valio chamavam-se Nicacio Valio, nascido em Athenas, na Grécia, e Vicência di Lucca, nascida em Sicília, na Itália. 

Esses dados foram deixados pelo Major Luiz Válio, seu irmão caçula.

Elias Valio era comerciante de armarinhos, fazendas, ferragens e roupas feitas.

Casou-se com Maria Imaculada Genesi e viveram em Pilar do Sul com os filhos: Francisco, Vicentina, Brasilino, Isaltino, Adelina, Ângelo e Gabriel Válio, todos eles de grande expressão social e política.

Elias foi funcionário postal e também político.


Veja uma Ata: 

"Ata de 25 de maio de 1892 presidente Padre Vicente Gaudinieri comunicou que iria realizar o benzimento da Pedra fundamental do prédio que seria edificado para acomodar a Casa da Câmara e a Cadeia da Villa, para isso seguiu acompanhado pelos intendentes e por populares procedendo assim o ato em suas vestes sacerdotais. 
Houve aclamação e vivas dos populares e isso acompanhado por músicas executadas pela Corporação Musical Progresso Pilarense.
O cidadão Júlio de Campos proferiu um discurso “eloquente” e foi realizada uma saudação ao Presidente do Estado de São Paulo Dr. José Alves de Cerqueira Cézar. 
A relação completa dos presentes que assinaram a Ata: Padre Vicente Gaudinieri -Presidente, Antonio Vieira de Quevedo- Vice Presidente, Tenente Antonio Euzébio de Moraes Cunha – Intendente; José Baptista, Julio Francisco de Campos, José Ferreira dos Santos F.; João Manoel de ...; Euzébio de Moraes Cunha; José Ribeiro dos Santos Flora; Caetano Nunes de Proença; José Gassetari; José Rodrigues ....., Manoel Rodrigues de Paula; Elias Valio; Antonio Gonçalves da Paixão; Benedicto de Godoy...; João Batista Machado; Fortunato Pires de Oliveira; Antonio Vieira de Medeiros; Joaquim .... e Aniceto Vieira de Medeiros".
No início de 1.899, Elias estava atuando como Vice-presidente da Câmara de Pilar do Sul.
O Major Elias Válio teve papel predominante por ocasião das discussões acerca dos limites do município com outros da região, inclusive com São Miguel Arcanjo. 

Conforme Ata pesquisada na Câmara Municipal de São Miguel Arcanjo do dia 25 de maio de 1.914, a questão de limites entre os municípios de São Miguel Arcanjo e Pilar do Sul só teve um bom desfecho, porque a arbitragem coube ao presidente do Estado, Washington Luiz Pereira de Souza. 

O acordo foi feito no dia 09 de maio de 1.914, às quinze horas e trinta minutos, na casa da residência do cidadão Samuel Nunes Ferreira, no Bairro do Alegre. 
Estiveram presentes, nesse dia, representando a Câmara de São Miguel Arcanjo, o Tenente Antonio Fogaça de Almeida, o Coronel João Balduino Ribeiro, o Capitão Arthur das Chagas Monteiro e o Tenente Abílio Ferreira Leme. 
Representavam Pilar do Sul, os senhores Majores Euzébio de Moraes Cunha e Elias Válio e o Capitão Eloy Lacerda, integrante da Maçonaria. 
Elias Valio faleceu no ano de 1.942; está eternizado num logradouro público de Pilar do Sul.
É a rua onde foi construída a sede social da banda lira da cidade que teve seus filhos, grandes músicos, ativos participantes dela:
Rua Elias Válio, 105.

O TÍTULO DE ELEITOR DE ELIAS VÁLIO - frente e verso-





Uma xerox desse documento foi conservada pela sobrinha Marina Branca Válio França, recentemente falecida, a qual hoje faz parte do acervo de Luiza Válio.






O FILHO FRANCISCO VALIO

Francisco Válio nasceu aos 08 de junho de 1.888 em São Miguel Arcanjo.  

Tornou-se viajante, trabalhando para a empresa Scarpa, de Sorocaba. Depois disso, passou a dirigir uma turma de trabalhadores na implantação de postes de linha telegráfica por toda a região. 
Aos 21 anos de idade, casou-se com Maria Eugênia de Almeida Válio e tiveram 14 filhos: Hilda, Zilda, Aparecida, Benedito, Benedita, Maria dos Prazeres, José, Celso, Elias, João, Maria Therezinha, Maria de Lourdes, Maria dos Prazeres II e Maria Imaculada; sete deles morreram ainda pequenos. Todos eles nasceram em São Miguel Arcanjo.

A filha Zilda casou-se com Joaquim Alves de Lara, filho de Francisco Alves Corrêa e Luiza Fausta de Lara, gente do município de Tietê. 
Professora, lecionou na década de 30 no Bairro dos Veados, em Fartura e no Bairro Varginha, em Itapetininga. A foto de sua formatura foi zelosamente guardada pela saudosa prima Maria Aparecida Valio, e agora faz parte do acervo da Família Válio de São Miguel Arcanjo. 
Tanto Zilda quanto o seu marido faleceram em Itapetininga, onde residiram.

A filha Hilda Valio também foi professora.
O filho José Válio residiu em Itapetininga. No ano de 1.939 foi contratado para exercer a função de auxiliar de fiscalização de impostos e taxas na cidade de Igaratá, conforme noticiado no "Estadão" de 11.05.1.939. Foi vereador em Itapetininga, na década de 50, ao tempo de Alceu Correia de Moraes, Acácio e Benedito Tambelli, Arnaldo Barreti, Francisco Lisboa, João Arruda, Francisco César Rosa, Miguel Pedro dos Santos Terra, Cesário Leonel Ferreira e outros. Casou-se com Nelide de Almeida Válio, com quem teve os filhos: Marcelo, Reinaldo e Adriana Almeida Válio. Faleceu aos 13 de setembro de 1.984, com 63 anos de idade; teve a nota de seu falecimento divulgada pelo "Estadão". 
A filha Maria Therezinha Válio também era professora e casou-se com João Elias de Almeida, que foi fundador da Associação de Contabilistas, membro da diretoria da Associação de Ensino e Tesoureiro da Santa Casa de Itapetininga e que faleceu no ano de 1.999 com 69 anos de idade. Therezinha faleceu em setembro de 2.009, deixando os filhos: João Elias de Almeida Júnior, Guilherme, Eduardo, Maria Lúcia e Rosa Maria.
Em Pilar do Sul, Francisco Valio foi comerciante e político bastante atuante.
No dia 9 de novembro de 1.911 foi exonerado, a pedido, do cargo de Presidente da Comissão Municipal de Agricultura de Pilar do Sul, conforme se insere do jornal "Estadão" desse dia.
Nomeado prefeito em 1.911, renunciou ao cargo na sessão ordinária de 15 de fevereiro de 1.911. A princípio seu pedido não foi aceito pelo vice-presidente da Câmara. Foi apresentada ao plenário uma carta do Presidente Vicente Amaral, que estava ausente, onde pedia para constar em ata a seguinte declaração datada de 11 de fevereiro de 1.911:

“Tendo sciencia que na sessão do dia 15 próximo será lida a exoneração a pedido do cidadão Francisco Válio, do cargo de Prefeito Municipal declaro a mesa que se presente eu estivesse votaria contra o seu pedido de exoneração. Outrossim peço-vos que mandais tomar em acta esta minha declaração. Saúde e fraternidade* .....Vicente Amaral.”
Nada demoveu a vontade de Francisco Valio até que afinal sua renúncia foi aceita pela Câmara pilarense.
Como vereador também renunciou ao cargo em 20 de junho de 1.911.
Tudo por causa de questões sobre o cemitério!
Começou assim: 

Na Sessão Ordinária de 20 de Junho de 1911 após a proposta da Comissão de Obras parece que, pelas informações da ata, houve um atrito entre os Vereadores. 
O Vereador Francisco Valio solicitou que se oficiasse à Secretaria de Estado do Interior consultando se podia o atual Cemitério continuar em poder da Igreja. 
Na sequência, o vereador Henrique Menesine solicitou que fosse votada a proposta da Comissão na forma nominal e parece que isso criou grande desconforto ao Vereador Francisco Válio que, levantando-se, pediu sua exoneração do cargo de Vereador e retirou-se da sala de sessões. 
A votação transcorreu assim mesmo e o resultado foi a rejeição por três votos a dois. 
Votaram a favor o Vereador Henrique Minesine e Antonio Vieira de Proença e votaram contra José Braga Sobrinho, Antonio Ribeiro de Carvalho e Vicente Amaral.

Após os atritos da Sessão Ordinária de 20 de Junho de 1911 o Vereador Francisco Valio declarou sua renúncia ao cargo de Vereador e retirou-se da Sala das Sessões. 
Na Sessão de 04 de Julho de 1911 o Presidente declara aberta a vaga de vereador e na sessão imediata, em 18 de Julho de 1911, o Vereador Henrique Minesine propõe que se oficie o cidadão Francisco Valio para que reconsidere a renúncia, porém, o Presidente responde ser impossível, pois, já havia sido declarada aberta a vaga na ata da sessão precedente e providenciado a eleição. 
A Câmara aprovou na mesma sessão Voto de Louvor ao cidadão Francisco Válio.
Mas houve ainda uma última renúncia de Francisco. 
Aconteceu na sessão ordinária de 03 de Novembro de 1911, quando ele pediu demissão do cargo de Presidente da Comissão Municipal de Agricultura sendo substituído pelo cidadão Manuel de Senna Cardozo.
No ano de 1.920, ele passou a residir em Itapetininga; foi estudar na tradicional Escola Estadual “Peixoto Gomide”.
Foi em Itapetininga que faleceu a filha Maria dos Prazeres, a 18 de agosto de 1.923.  
Francisco Válio formou-se em Contabilidade; seguiu a carreira de bancário como contador e mais tarde gerente do Banco Agrícola e da Cooperativa de Crédito de Itapetininga. 
Foi colaborador na casa atacadista “Irmãos Duarte”.
Foi fundador, vice-diretor e professor da Escola Técnica de Comércio e do Ginásio de Itapetininga. 
Lecionava Datilografia na Escola de Comércio de Itapetininga.
Suas outras atividades: secretário do Partido Constitucionalista e secretário da Associação Comercial de Itapetininga, que ajudou a fundar aos 09 de junho de 1.933, juntamente com os cidadãos: João Barth, Coronel Cândido Severiano Maia, Francisco Lisboa, Bartolomeu Rossi, Constantino Matarazzo, Maurício Tambelli, Euclides de Moraes Rosa, Paulo Soares Hungria e Karnig Artim Bazzarian. 
No site da Associação Comercial de Itapetininga, há o seguinte tópico relacionado à iniciação da entidade: 


"Associação Commercial de ItapetiningaConvidam-se todos os commerciantes e industrias desta cidade e município, sem distinção de qualquer espécie, para uma reunião que se realizará domingo, 9 do corrente, às 14 horas, num dos salões do Clube Venâncio Ayres, para a fundação da Associação Commercial de Itapetininga. Tratando-se de uma iniciativa de grande alcance, roga-se o comparecimento de todos os interessados, ainda que não sejam sócios do clube.
Itapetininga, 1º de julho de 1933.
A Comissão.
Candido Severiano Maia, João Barth, Constantino Matarazzo, Francisco Lisboa, Francisco Válio e José Maria. O de óculos, abaixo, é Francisco Válio.

João BarthCel. Candido Severiano MaiaFrancisco LisboaJosé M. C. Cherenga

Francisco VálioConstantino MatarazzoPedro Rogachesky

Francisco Válio foi presidente no biênio 1.938 / l.939, exercendo vários outros cargos nas diversas diretorias.
Na edição de 24 de agosto de 1.935, no jornal "Tribuna Popular", de Itapetininga, o contador Francisco Valio foi lembrado por alguém que se assinou como "um amigo desta terra" para compor suposta chapa às eleições municipais que preencheria várias classes, tendo como companheiros: Antonio Leme Filho (engenheiro, proprietário e capitalista), Antonio Vieira Sobrinho (agricultor e industrial), Constantino Matarazzo e Waldomiro de Carvalho (comerciantes), Alberto Sales (ferroviário), Anísio Alves Cardoso (médico e lavrador) e João B. Macedo (advogado).  
Faleceu no dia 1º. de maio de 1.946. 
Tem sua biografia impressa na revista da Associação Comercial de Itapetininga, ano de 2.003, página 28 e nela nos baseamos para falar um pouco de sua vida.
Uma das mais famosas avenidas de Itapetininga tem o seu nome: Avenida "Francisco Valio".  

AS FILHAS VICENTINA E ADELINA


Vicentina nasceu em 1.892 em Pilar do Sul, lá também casando-se aos 25 dias de setembro de 1.909 com o Capitão Juvenal Marques ou Juvenal Marques de Quevedo, político local que nasceu em 1.890 e faleceu aos 11 de junho de 1.944.
Tiveram dois filhos: Gentil Marques Valio - e José Marques Valio, que foi Presidente da Câmara em Bastos no ano de 1.949. 
Após quatro anos de matrimônio, Vicentina veio a falecer.
Um ano depois, em 18 de abril de 1.914, o Capitão desposou a cunhada Adelina Válio, nascida em 1.894, que também faleceu jovem, aos 38 anos de idade, em 27 de julho de 1.932.
Com Adelina, o capitão teve 5 filhos: Nelson, Aparecida, Irma, Ruth e Décio.

Quando Adelina faleceu, todos os seus filhos eram menores de idade.
A moça da sacada é Ruth e uma das meninas é Irma, segundo acervo da família. Estas fotos pertenceram a Maria Aparecida Valio, filha do Major Luiz Valio, que escreveu atrás.
No caso da fotografia de Ruth, ela mandou essa foto para o Tio Gustavo - deve ser Gustavo Grandino, da genealogia de Vicenza Valio. 
No verso da foto das meninas, Maria Valio escreveu "Irma e Lígia, primas".

Ricardo Marques Válio, bisneto de Vicentina, neto de Gentil Marques Valio e filho de Amaury Marques Valio possui um blog (valio.org) onde vem registrando dados sobre a família Valio. Atualmente mora no Rio de Janeiro, mas seus parentes mais próximos estão em Campinas. Veja o e-mail que ele enviou para Luiza Valio, administradora deste site:

(((((Olá Luiza, tudo bem contigo?

Meu nome é Ricardo Marques Válio, filho de Amaury, neto de Gentil, bisneto de Vicentina, trineto de Elias... :D Acho que essa é apresentação familiar mais completa... rsrsFaz um tempo que já estou pensando em lhe escrever, mas sempre acabo postergando sabe-se lá porque. Mas fiquei muito triste hoje quando fui entrar no seu blog da família e vi que ele não estava mais no ar. Acabei descobrindo seu novo endereço e li quais foram os motivos, e novamente, fiquei triste.
Bom, estava há tempo para lhe escrever exatamente porque queria compartilhar com você o site que eu estava montando, e até me desculpar por ter colocado lá um link contendo seus blogs, incluindo o da família, para que as pessoas vissem com detalhes muita coisa interessante que você tinha escrito, porém sem ter lhe falado nada. Infelizmente, foi através de mesmo link que descobri que seu site estava fora. 
Primeiramente, gostaria de sugerir a você, caso ainda não tenha tentado, que peça ao blogspot um backup de seus dados, talvez não seja fácil, mas acho que vale a pena tentar..
De qualquer maneira, vou atualizar os links para seus novos endereços, tá legal?
Seu blog foi uma excelente fonte de informações para eu encontrar várias peças do quebra-cabeça da família na hora de montar uma árvore genealógica gráfica em meu site (valio.org), gostaria que visitasse se tiver um tempinho, e opinasse se desejar.
A família é muito grande e cada vez cada um está mais distante um do outro, a internet é uma ótima maneira de manter todos em contato. Antes estavamos todos no interior de São Paulo, e pela construção da árvore fui achando gente nos EUA, Alemanha, Japão, além de vários estados do Brasil, até eu mesmo que vim parar no Rio de Janeiro há um ano junto com meus filhos (e a mais novinha até nasceu carioca, rsrsr), mas sinto falta de todos, principalmente em Campinas onde estão meus parentes mais próximos hoje.
Um grande abraço,Ricardo Valio))))))

 O FILHO BRASILINO


Brasilino Valio nasceu em 10 de setembro de 1.897 em Pilar do Sul e faleceu em 20 de junho de 1.958 em Itapetininga.
Foi escrivão da Câmara Municipal de Pilar do Sul em 1.919.
Maçom, pertenceu à Loja Firmeza de Itapetininga. 
Músico, tocava clarinete na banda de Pilar do Sul e em Itapetininga.
Casou-se com Carmela de Moraes Cunha, filha de Euzébio de Moraes Cunha e Alzira Castilho Barbosa. Esse Eusébio nasceu em Pilar do Sul no ano de 1.865 e morreu na mesma localidade em 30 de abril de 1.941.

Euzébio de Moraes Cunha participou do processo de emancipação do município de Pilar do Sul; era filho de Antonio Euzébio de Moraes e de Eliza do Carmo Soarez, conforme se insere do volume "Um Estudo Sociolinguístico das Comunidades Negras do Cafundó, do Antigo Caxambu e de seus Arredores", do autor Sílvio Vieira de Andrade Filho, membro do IHGGI.
Brasilino deixou os seguintes filhos: Mariquinha Válio Perpétuo, casada com Irineu Perpétuo; Tereza Françani, casada com Raimundo Françani; Lila; Milton Válio, que era professor e aposentado como funcionário da Caixa Econômica do Estado de São Paulo, em Itapetininga, e lá faleceu aos 81 anos de idade, em novembro de 2.006, deixando a esposa Lurdes Basso Válio - Marcos Valio, em 2.009, deixou comentário no You Tube: "Parabéns ao Coral Santa Terezinha tempos de seresta dos meus pais e, em especial, do casamento de meu querido Tio Milton Valio (in memorian) com a querida Tia Lourdes Basso Valio, no ano de 1986". Milton Valio era membro do PSD de Pilar do Sul, ao lado de Gabriel Valio, presidente; Antonio Lacerda, vice; Deolindo Santos Oliveira, 10. secretário; José Antonio Rosa, 2o. secretário; Benedito Ferreira de Souza, 1o. tesoureiro; José Paulino de Almeida, 2o. tesoureiro; Brasilino de Moraes Rosa, procurador; e membros: Gabriel Batista de Proença, Eusébio Góes Menino, Manoel Ferreira, José de Paula Rosa, Gustavo Piloto, Adelino Adão Caetano, João Marcolino Vieira, Juventino Manoel Ferreira, Paregino Minesine, Antonio Miguel de Proença, Joaquim Antunes Maciel, Milton Válio, Laurindo de Oliveira Rosa, Genésio Rolim de Góes, Juveliano Ferreira Leite, João Rafael Castanho, Benedito de Almeida Vieira, Acácio de Moraes, Francisco Vieira da Rosa, José Tavares de Albuquerque, Daniel Silva Ramos, Antonio Vieira de Medeiros, Benedito Vieira de Medeiros, João Rodrigues de Almeida, Alfredo Ferreira do Santos, Alexandre Fernandes Lemes, Agostinho Pinheiro dos Santos, João Rodrigues da Silva, Juvenal dos Santos Terra Sobrinho, José Bento Machado, Leônidas Lemes da Silva, Armando Caioli, Salvador Proença de Carvalho, João Ferreira de Campos, Horácio Ferreira de Campos, João Antonio de Barros, Raunílio de Oliveira Campos, Antonio Araujo, Antonio Rodrigues de Almeida, Benedito Gomes Sobrinho, Anselmo Tedesco, José Antonio de Barros, Augusto Rodrigues de Almeida, Raimundo de Moraes Rosa, Joaquim Messias Vieira, Antonio Batista de Proença, João Batista Maciel, Mamede Batista de Proença (1.954); Helena; Adelino; Cecília e José Moraes Válio. A nota do seu falecimento foi publicada no jornal "O Estado de São Paulo" do dia 26 de junho de 1.958.
O filho José Moraes Válio, pediatra, participou em 1.955 da Exposição Anatomo-patológica, sendo responsável pela parte clínica, ao lado de Miltom Cury ( 4a. C. H. ), Armando Valente (2a. M. M. ), conforme publicação no "Estadão" de 15 de abril de 1.955.  


O FILHO ISALTINO

Isaltino Válio nasceu em Pilar do Sul e, no ano de 1.920, era lá  agente do periódico ‘O Rouxinol’, editado em São Miguel Arcanjo, sob a direção de Mário Augusto de Medeiros. 
Como o irmão Brasilino, era músico. Também maçom pela Loja Firmeza, de Itapetininga, exerceu o cargo de 2º. Vice-presidente, secretário e orador, além de outros, no período de 1.936 a 1.949.
Professor do Ginásio de Itapetininga, foi fundador da Escola Técnica de Comércio de Itapetininga e o primeiro cidadão a se formar em Economia.
Pertenceu às fileiras da ex- União Democrática Nacional. Foi diretor do Clube Venâncio Aires e Recreativo.
Na foto, de óculos escuros, em recepção oferecida pelo Rotary em 1.961, em Itapetininga.
Isaltino empresta seu nome à EMEI localizada à Rua Sebastião Silva Leite Fernandes, 410, em Itapetininga.

Casado com Hilda Camargo Válio, faleceu aos 23 de setembro de 1.972, com 72 anos de idade, deixando os filhos: Ari Válio, casado com a professora Eneida Ruivo Válio; João Batista Válio, casado com a professora Cecília Innaconi Válio e Mercedes Válio Coli, casada com Nadir Antonio Coli. 
Quando faleceu, era Diretor Geral da Associação de Ensino de Itapetininga. 

 O FILHO ÂNGELO


Ângelo Válio tinha o apelido de Nenê e também nasceu em Pilar do Sul.
Músico assim como os irmãos, lá lecionava a matéria para quem quisesse tomar parte na banda lira da cidade.
Tocava trombone de canto.
Um dia tornou-se servente escolar na Escola Cel. Fernando Prestes, em Itapetininga, e para lá mudou-se; começou a trabalhar em junho de 1.953. 
No ano de 1.954, passou a reger a banda do Tiro de Guerra, mais tarde Banda Santa Cecília e hoje Corporação Musical Lira de Itapetininga, que foi idealizada pelo professor Durvalino da Costa e Silva.
No dia 28 de outubro de 1.960, o maestro Ângelo Válio, acompanhado de Benedito de Campos Soares e Claudionor Ramos, conforme ata de 16 de setembro de 1.957, foram conversar com o prefeito José Ozi para formalizar a admissão do músico José Carlos Soares nos serviços públicos, aproveitando-o para reforçar a banda.
Na década de 70, os ensaios aconteciam na Vila Orestes e todos os seus componentes tocavam de graça.
Ângelo regeu a banda de Itapetininga por quase meio século.
Com a morte do maestro João Ortiz de Camargo, Ângelo foi contratado para reger a banda de São Miguel Arcanjo. Nessa época já estava aposentado: foi exonerado do serviço público por decreto do dia 20 de julho de 1.962.
Durante um ano ele foi pensionista no Hotel São Paulo, então pertencente à senhora Augusta, filha de João Paulino da Silva. Nesse tempo, o então prefeito José França era Presidente de Honra da Corporação Musical Sãomiguelense, hoje desativada.
Ângelo Valio não teve filhos.
Adotou um menino que era filho de Carlos Caricatti, de São Miguel Arcanjo.
Viúvo, internou-se no Asilo de Pilar do Sul onde veio a falecer.
Segundo seu sobrinho Jairo Valio, neto de Elias, o menino adotado por Ângelo chama-se Nelson Valio.
O texto abaixo foi escrito por seu filho Nelson Valio colhido do extinto jornal "Folha de São Miguel Arcanjo", edição 16 de março de 1.973: 

“AS COISAS FLUTUAM” 

As coisas flutuam nos murais desfalecidos, nas campinas verdes secas, no fim de tarde que tudo torna amarrotado... 
Ainda a pouco lá fora os risos formavam uma dissonante sinfonia, misturando-se com a chuva, perturbando a paz das rosas brancas, às vezes, arrancando-as dos ramos, fazendo-as vagar como as coisas que flutuam à tarde... 
Flutuando à tarde, estão os passos correndo – parados -, as mãos dadas –vazias -, as musas virgens – prostituídas -, os poetas que não escrevem mais, as mentes acovardadas dos hipócritas entorpecidos... 
A tarde é bem azul. 
Azul negro. 
Então, ela emburrou-se. Cansou de ser tarde, despediu-se, despindo de sol as vilas e as casas, esquinas, bares, becos e botecos. 
Foi caminhando... E se foi... E sumiu. 
Agora, tudo ficou com sabor de nada, borbulhando, dançando lágrimas nos olhos da menina. 
Pétalas pálidas caíram no pedaço de calçada, no fundo de quintal. 
E os imbecis continuam lá, sorrindo, segurando enormes pacotes vazios". 

O FILHO GABRIEL

Gabriel Válio foi um grande cidadão. Prestou seus serviços em Pilar do Sul como subdelegado em 1.935, vereador, Prefeito na década de 50, Delegado de Polícia, grande militante político e Maestro. 
Novamente chefiando o Executivo, no ano de 1955, concedeu um empréstimo para que a Corporação Musical Lira Pilarense, o maior patrimônio cultural da cidade, ainda hoje em atividade, pudesse construir sua sede própria. 
Figura, ao lado de Ângelo Amassalas, Leopoldo Vieira, Durvalino da Costa e Silva e Adelino Adão Caetano como um dos principais maestros da cidade em todos os tempos.
No ano de 1930 a Corporação Musical Lira Pilarense contava com os seguintes músicos: Gabriel Valio (Bombardino), Brasilino Valio (Clarinete), Ângelo Valio (Trombone de Canto), Lázaro Pereira das Neves (Trompa Harmonia), Benedito Pereira (Trombone Harmonia), Augusto Rodrigues (sax harmonia), Benedito Joana (que auxiliava como trombone de harmonia ou de canto, conforme precisava), Batista Ferreira (1º Piston), Acácio Adão (2º Piston), Brasilino de Moraes Rosa (Clarinete), Joaquim Ferreira (prateleiro), Raimundo Moraes Rosa (Bumbeiro), Benedito da Marinha (Caixista), Francisco Domingues (Baixista), também tinha Eugênio Teodoro Sobrinho, que era clarinetista e ajudava muito a Banda, dando serviços para alguns músicos em sua Sapataria, tinha também o Durvalino Costa e Silva, Ludgero Costa e Silva e o Ireno Costa e Silva, todos os irmãos, que eram Professores em Itapetininga, e sempre que estavam em Pilar do Sul, ajudavam a Banda. 
Conta ainda que Gabriel Válio, duas vezes Prefeito Municipal de Pilar do Sul, desde essa época, sempre foi o Maestro e chefe da Banda e tudo o que era necessário ele resolvia com dedicação.
Américo Simões, quando estava com 11 anos, começou a aprender música, com Ângelo Valio, e quando tinha 13 anos, tocou pela primeira vez na cidade de São Miguel Arcanjo, e daí em diante foi se formando mais músicos, como Leônidas, Osvaldo, Francisco Dias, Dito Pernilongo, Dirceu Baptista, João Paulino, Dito Leandro, Adelino Adão Caetano e outros mais. 
A Praça onde foi construído um relógio de sol empresta seu nome; chama-se Praça "Gabriel Válio". 
Justa homenagem a um filho que tanto amou sua terra e sua gente.
Casado com Maria Conceição, que também empresta seu nome a um logradouro público em Pilar do Sul, tiveram os filhos:
1. Benedito Valio, já falecido; 

2. Jairo Valio; 
3. Denis Valio;
4. Maria José Valio;
5. Therezinha Aparecida Valio Corrêa.
Sua residência em Pilar ficava no terreno onde está hoje a agência do Bradesco, na rua que vai para o Asilo.
Braz Alves Munhoz, morador em São Miguel Arcanjo, se lembra de Gabriel como uma das figuras mais carismáticas que ele já conheceu.
- “Era humilde, mesmo depois de ter sido grande político e homem público”.
- “Como maestro”, lembra Braz, “certa vez fomos convidá-lo a trazer a banda de Pilar até São Miguel na Festa de São Roque. Antigamente, a Festa de São Roque acontecia no terreno onde hoje está a Rodoviária: era o campo de futebol da rapaziada da Vila. A alvorada seria às 4 da manhã. Ele já estava com mais de 80 anos de idade. Mas veio e fez a alvorada. Tocamos juntos mais de vinte músicas. Tinha um filho dele que vinha lá de Sorocaba só para tocar prato na banda, mas não me lembro do nome dele”.
E completa Braz: -  “Numa sexta-feira, estava eu na Prefeitura quando recebi uma ligação de Pilar dizendo que eu me preparasse e todos os músicos da cidade também porque viria uma condução lá de Pilar no dia seguinte para buscar a gente para acompanhar o enterro de Gabriel. Os músicos fizeram a guarda de honra no seu guardamento que realizou-se no recinto da Câmara Municipal. Naquela época, a Câmara ficava na atual Praça da Matriz”.






















A Praça "Gabriel Valio", no Bairro Campo Limpo, em Pilar do Sul. 


Gabriel Valio ajudou na fundação da Associação Beneficente Bom Jesus - Asilo de Pilar do Sul, juntamente com os cidadãos Padre João Batista Ricci, Dr. Antonio Callezi, Senhores: Antonio Calvo, Antonio Lacerda, Benedito de Carvalho, Brasilino de Moraes Rosa, Carlos Bento Diniz, Eugenio Theodoro Sobrinho, Dionísio de Paula Rosa, Joaquim de Almeida Rosa, João de Almeida, João Marcolino Vieira, João Urias de Moura, Luiz Antonio Diniz, Osório Rosa, Pedro Batista, e Julio da Silveira Diniz. 



A senhora de número 21 é a mulher de Gabriel Valio, mãe de Benedito, Jairo, Denis,  Maria José e Therezinha. Do "Corujando dia e noite- ciranda das mães".


O FILHO DE GABRIEL VALIO: JAIRO VALIO 
É Douglas Lara quem nos conta a história de vida de Jairo Valio, o segundo filho do casal Gabriel e Maria Conceição no texto a seguir.
'Nascente das Águas' conta Pilar do Sul e Sorocaba

Às encostas da Serra de São Francisco, nasce Pilar do Sul, Jairo Valio e seu livro “Nascente das Águas”. 
Escritor, poeta e cronista, Jairo Valio, 72 anos, trata em seu livro, publicado em Novembro de 2005 pela editora Ottoni, sua história, que se mistura com a de Pilar e sua vivência em Sorocaba.

Rica em quedas d´água, Pilar do Sul desempenhou importante papel na geração de energia hidrelétrica, fornecendo eletricidade para as fábricas de fiação, tecelagem e estampagem de tecidos da Companhia Nacional de Estamparia, em Sorocaba. Este episódio é pouco conhecido por historiadores, mas Jairo Valio detalha com grandeza em sua obra.

“Nascente das Águas”, fruto de cinco anos de trabalho, trata da história de Pilar do Sul desde a sua fundação em 1891, até os dias atuais. Foram selecionadas ilustrações, reproduções de documentos raros, como a certidão de casamento de João de Camargo Barros (o curandeiro Nhô João), realizado no dia 1º de abril de 1891 em Pilar do Sul, que evidenciam ainda mais fatos históricos, políticos, econômicos e sociais.

Valio conta sobre a economia da cidade, baseada principalmente na fruticultura; suas proezas como meia de campo do time da Associação Atlética Pilarense; as famílias tradicionais, as entidades beneficentes e assistenciais, além da exuberância da natureza da região, com suas águas, mata e clima.

A família de Jairo, retratada em “Nascente das Águas”, teve participação ativa na história de Pilar. Gabriel Valio, pai de Jairo, foi prefeito e vereador por duas legislaturas, além de ter sido delegado de polícia, maestro da banda “Lira Pilarense” e juiz de paz. A mãe, Maria da Conceição Valio, foi uma grande religiosa e comprometida com as ações sociais durante toda sua vida. Outro capítulo da obra é dedicado ao seu tio José de Paula Rosa (tio “Zuzu”), dono do Cine Pilar e que tinha como característica ser “um adulto com espírito de moleque”.

Na década de 50, aos 15 anos de idade, Jairo Valio veio morar em Sorocaba, onde construiu grande parte de sua história, experiência que relata no capítulo “Sorocaba que me acolheu”.

Casou-se pela primeira vez com Ondina Rosa Valio, falecida, e atualmente está casado com Eva Ribeiro do Nascimento. É pai de três filhos e avô de quatro netos.

Foi gerente de vários bancos, atuou em projetos sociais, principalmente a Pastoral do Menor e a Pastoral da Criança, e como vicentino, por mais de 34 anos.

Pai de “Nascente das Águas”, colaborador de mais de 50 crônicas publicadas no Cruzeiro do Sul, escritor de “O Jornal”, de Pilar, intitulado em junho de 2002 como Cidadão Sorocabano, Jairo foi recentemente empossado como membro da Academia Sorocabana de Letras (ASL), solenidade que ocorreu em 2 de dezembro. Ocupa hoje a cadeira número 14, cujo titular foi o escritor pernambucano Alcides Nicéas.

Mas Jairo Valio antecipa que não pretende parar por aqui. Após o sucesso de "Nascente das Águas", irá publicar um outro livro, desta vez, de crônicas e poesias.

Jairo Valio nasceu em Pilar do Sul, Estado de São Paulo - Brasil, aos 05 de outubro de 1934, filho de Gabriel Valio e Maria Conceição Valio. 

Formado em contabilidade, trabalhou por 38 anos em várias instituições financeiras, como Gerente, onde aposentou-se posteriormente. Escritor, pesquisador e poeta, é apaixonado pela Literatura e escreve crônicas nos Jornais Cruzeiro do Sul de Sorocaba e O Jornal de Pilar do Sul. Foi membro do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente [CMDCA] por duas gestões também como voluntário e é Vicentino por mais de 30 anos pela Sociedade São Vicente de Paulo em Sorocaba/SP. Recebeu o Título de Cidadão Sorocabano, outorgado pela Câmara Municipal de Sorocaba, em reconhecimento da cidade pelos trabalhos em favor dos pobres e oprimidos, principalmente pelas crianças abandonadas nas ruas das periferias. É membro da Academia Sorocabana de Letras. Tem publicado o Livro Nascente das Águas e participação no Livro Antologia dos Escritores Brasileiros 2º Edição.
Diário de Sorocaba de 28 de janeiro de 2007

Douglas Lara


OS FILHOS DO PATRIARCA DOMINGOS TROMBETTI.


Luiz Valio Júnior deixou escrito que Dom Francisco Domingos Vito Paschoal Valio Trombetti, conhecido por "Domingão". fixou residência em São Miguel Arcanjo quando a região era apenas um arraial com poucas casas.
Ele  e a dona Anna tiveram quatro filhos, três deles nascidos na Itália (Elias, José e Vicência) e Luiz, nascido no Brasil, especificamente no município de São Miguel Arcanjo, onde a família, depois de alguns anos, juntou-se novamente. 
José Valio nasceu na Itália em 08 de abril de 1.858 e casou-se com Rosa Barra Judiz, em Sorocaba.
Elias Válio nasceu na Itália em 1.871 e foi morar em Pilar do Sul.
Vicência Válio nasceu na Itália e residiu em Botucatu. 
Luiz Válio nasceu em São Miguel Arcanjo no ano de 1.880 e permaneceu no local.

DOM FRANCISCO DOMINGOS VITO PASCHOAL VALIO TROMBETTI, VULGO "ITALIANO", O PATRIARCA DOS VÁLIO NO BRASIL


QUEM NOS CONTA SOBRE O PATRIARCA DOS VÁLIO NO BRASIL É O SEU PRÓPRIO FILHO, O JÁ FALECIDO MAJOR LUIZ VALIO.
O MAIOR INTELECTUAL DE TODOS OS TEMPOS DE SUA TERRA NATAL, SÃO MIGUEL ARCANJO, LUIZ VÁLIO, TAMBÉM SE ASSINAVA J. SEVERO, FERDINANDO CIPÓ, LV, ETC., NOS INÚMEROS ARTIGOS QUE DEIXOU ESCRITOS NO EXTINTO JORNAL "O PROGRESSO".
NETO DE NICACIO VALIO, NASCIDO EM ATENAS - GRÉCIA - O QUAL SE CASOU COM VICÊNCIA DI LUCCA, ITALIANA DA SICÍLIA, LUIZ VÁLIO ERA FILHO DE DOM FRANCISCO DOMINGOS VITO PASCHOAL VALIO TROMBETTI, QUE SE CASOU COM ANNA MARIA DE BÔNO GIUDICE, AMBOS NASCIDOS NA ITÁLIA.
DOMINGOS TROMBETTI FORA MILITAR. 
ALIÁS, TODOS OS ANTEPASSADOS DA FAMÍLIA FORAM MILITARES. 
CERTA FEITA, DOMINGOS TROMBETTI COMANDOU UMA PRAÇA DE GUERRA SITIADA, TENDO DE RENDER-SE PELA FOME, VISTO COMO ELE E OS SEUS SOLDADOS, DEPOIS DE CONSUMIREM TODOS OS VÍVERES, PASSARAM A DEVORAR OS CAVALOS, OS CÃES, OS GATOS E ATÉ AS RATAZANAS ALI EXISTENTES, COMO NOS CONTA LUIZ VALIO.
SEGUNDO SE SABE, DOMINGOS TROMBETTI DEVE TER EMBARCADO PARA O BRASIL LOGO DEPOIS DE 1.860, ESCONDIDO EM UM NAVIO, DEIXANDO NA ITÁLIA A ESPOSA E TRÊS FILHOS: JOSÉ, ELIAS E VICÊNCIA. DEPOIS DE ALGUNS ANOS, ELES TAMBÉM VIERAM VIVER EM SÃO MIGUEL ARCANJO, ANTES DENOMINADA "FAZENDA VELHA".


DOMINGOS TROMBETTI E A FAZENDA VELHA.

Não fosse o acervo do "Estadão", e jamais encontraríamos alguma coisa real sobre a história dos primórdios de nossa São Miguel Arcanjo.
E vamos contar agora sobre a tal FAZENDA VELHA, voltando no tempo cento e quarenta e sete anos, transcrevendo o que o jornal "Município", de Itapetininga, do dia 07 de outubro de 1.875 enviou para a edição do dia 13 de outubro de 1.875 do "Estadão", página dois, assim:

- Itapetininga - Temos o "Município" de 7 do corrente - Em editorial chama a atenção do governo para o importante Bairro da Fazenda Velha, cuja transcrição damos em seguida:
= "A FAZENDA VELHA é uma pequena povoação de 200 habitantes mais ou menos, e compreende 7 bairros ou quarteirões com o número de 5 a 6 mil habitantes, obedientes à paróquia, distrito e comarca de Itapetininga, província de São Paulo.
Dista de Itapetininga 35 quilômetros, do Capão Bonito do Paranapanema 52, de Sete Barras (ponto de embarque para Iguape no Rio Ribeira) 72.
Existe ali uma capela de São Miguel, e esta foi feita por contribuição dos mesmos habitantes, mas dirigida e auxiliada pelo sr. Antonio Mariano de Oliveira Fróes, que continua a zelar da mesma, e já deu providências para a reconstrução e aumento, empregando o seu dinheiro para depois haver dos habitantes por meio de subscrição.
Há também um bom cemitério com 50 metros de extensão, o qual também foi construído por contribuição do povo, e auxiliado pelo sr. Domingos Trombetti (Italiano) que ainda acha-se no desembolso quase da metade da quantia dispendida além do adjutório que deu.
Há uma escola particular de instrução primária bem frequentada.
Existem duas casas de negócios de secos e molhados.
Há uma banda de música instrumental criada particularmente pelo sr. José Galvão Nogueira, e composta esta de pessoas de sua família, e dirigida por um hábil professor, o sr. Theodoro de Almeida Mello.
A exportação da FAZENDA VELHA é fumo da melhor qualidade que há no comércio e sobe anualmente de 5 a 6 mil arrobas, para mais, e com acréscimo de ano para ano.
É de grande necessidade criar-se uma agência de correio para assim saber-se do estado de comércio.
Para este fim, já reclamou-se por meio de representação popular, e repetidas vezes pelo "Município".
O aperfeiçoamento da estrada de Sete Barras aproveitava muito à FAZENDA VELHA, tornando as cidades de Itapetininga e Iguape muito mais importantes do que hoje são.
Quanto a escola, o povo é bastante católico e reclama pela existência de um pároco na esperança de que o exmo. governo eleve este bairro a freguesia".


No jornal “O Progresso”, primeiro periódico editado em São Miguel Arcanjo, em data de 22 de fevereiro de 1931, número 99, Luiz Válio, usando um dos seus vários pseudônimos, neste caso J. SEVERO, assim escreveu a sua história e a do seu pai:


“Em 1868, meu pai construiu sua vivenda aqui na beira da estrada do Turvo, bairro mais populoso do município de Itapetininga, hoje quase abandonado, estrada essa que passava pela Paróquia da Fazenda Velha, criada em 11 de janeiro de 1866, apesar de possuir apenas uma capela perdida no meio da selva espessa, tendo, de longe em longe, um poético casebre coberto de capim, onde, felizes pela sua ignorância, viviam os seus pacatos moradores. 

Quando nasci, a casa de meus pais já de muitos anos vinha sendo frequentada por um geólogo norte-americano muito sabido em ciências mineralógicas, tendo feito estudos e descobertas importantes, tanto nas regiões centrais como nas regiões do litoral da então Província de São Paulo. 

Ele era meigo e simpático, possuindo o que quer que fosse de atraente, talvez como resultado dos eflúvios da floresta virgem que o envolviam, ou das emanações sutis dos minerais por ele encontrados nas profundezas da terra, emanações que, por efeito mágico, fizeram causa comum com o seu organismo físico... 

Não sei o que havia nele! 

Só sei que ele era bom, meigo e simpático, que embalou-me na minha infância, que ensinou-me a cultuar a Natureza e que fomos sempre amigos, amigos sinceros, amigos do coração! 

Tenho saudades do americano, mestre, amigo e pai espiritual, especialmente ao lembrar-me das lições que me fazia estudar e que, quando não sabidas, chamava-me a atenção, assim: 

- “Oh! Menina, você hoje estar muito burrinha!...” 

Pois bem, caros leitores, aquele americano cujo nome era James Monroe Keith, veio ao nosso país em 1867 e aqui percorreu a nossa província em todos os sentidos, estudando-lhe sempre o subsolo, onde viu coisas maravilhosas! 
Dizia-me ele que o Brasil encerra nas suas entranhas tesouros ainda mais maravilhosos que os antigos contos de fadas. Não sendo preciso nem a lâmpada de Aladim, nem a alavanca de Arquimedes para encontrá-los e removê-los. 
É bastante, dizia, o uso da broca de Rokfeller e a perspicácia comercial dos Rotchilds para trazê-los à superfície e transformá-los em moedas sonantes, com as quais, tornando-nos livres perante os meios financeiros internacionais, poderemos galgar a posição de “primus inter pares”, entre os países mais ricos do mundo! 

James Monroe Keith aceitou a grande naturalização de 1.889 e, por meu pedido, alguns anos mais tarde qualificou-se eleitor deste município, votando com o Partido Republicano Dissidente, fundado por Prudente de Moraes, de que também fiz parte como Presidente do Diretório local. 

James era um oposicionista sistemático, devido, talvez, ao fato de haver combatido, em seu país, de arma em punho, contra o Governo de Lincoln, na célebre Guerra de Sucessão, sendo este o principal motivo da sua vinda para o Brasil. 

Desde 1869 foi que o americano James veio de frequentar o solo sagrado, aonde, mais tarde, em 1880, tive a ventura ou a desventura de nascer e onde por ele fui embalado em criança, ouvindo-lhe canções regionais de envoltas com as saudades da pátria amada distante!... 

De 1889, aos 10 anos, comecei interessar-me pelos seus ensinamentos para logo mais tarde ajudá-lo a tratar de negócios valiosos relacionados agora com as despretensiosas linhas que irei rabiscando, no intuito de desvendar o único meio de nos tornarmos, nós, os brasileiros, independentes e abastados, apenas remando para o subsolo!” 


Conforme pesquisas feitas por mim nas Atas da Câmara do município de São Miguel Arcanjo ao tempo do início de sua autonomia já lá encontramos o nome de Domingos Trombetti como sendo morador e proprietário no lugar. 

Segundo consta, Domingos Trombetti morava em frente ao Philomeno Bráulio de Oliveira, local onde no ano de 1.919 seu filho, o Major Luiz Válio inauguraria uma empresa – Máquina São Luiz - que mais tarde foi vendida ao libanês Narlir Miguel e referido imóvel à família de Maura e Licério de Oliveira.
Antigamente, Rua Sete de Setembro e, hoje, Rua Cônego Francisco Ribeiro.  

Dom Francisco Domingos Vito Paschoal Valio Trombetti, pai do Major, faleceu em 20 de junho de 1907, às 14 horas. 

Anna de Bôno Giudice, sua esposa, faleceu em 29 de março de 1902, às três horas da madrugada. 

O Major Luiz Válio faleceu em 03 de setembro de 1.950. 

Sua esposa, Cirila Nogueira Valio, em 14 de setembro de 1.964, às 18 horas.
Todos estão sepultados em São Miguel Arcanjo.